Sérgio Greif - mailto:sergio_greif@yahoo.com
O que nos querem dizer quando falam em abate humanitário?
De acordo com certa definição, abate humanitário é o conjunto de procedimentos que garantem o bem-estar dos animais que serão abatidos, desde o embarque na propriedade rural até a operação de sangria no matadouro-frigorí fico.
Humanitário . . . bem-estar . . . palavras muito fortes e que não refletem o que realmente querem dizer. Termos como “humanitário” e “bem-estar” deveriam ser aplicados apenas nos casos em que buscamos o bem do indivíduo, e não para as situações em que procuramos matá-lo de alguma forma.
Quando enviamos ajuda humanitária à Africa não estamos enviando recursos para que os africanos possam se matar de uma forma mais rápida e menos dolorosa. Não estamos pensando: “Bem, aquele continente vive na miséria, cheio de fome, doenças e guerras, vamos resolver isso matando-os”. Ajuda humanitária significa alimentos, água, remédios, cobertores . . . intervenções realmente em benefício daqueles indivíduos.
Quando falamos em bem-estar social, bem-estar do idoso, bem-estar da criança, não estamos pensando em outra coisa senão proporcionar o bem a essas pessoas. Jamais pensamos em métodos de matá-los com menos sofrimento, porque isso seria o contrário de bem-estar, seria o contrário do que consideramos humanitário.
Por isso, quando escutamos alguém falar em “abate humanitário”, isso soa como um contra senso. A primeira palavra representa algo que vai contra os interesses do indivíduo e a segunda encerra um significado que atende aos seus interesses. Igualmente, a idéia de “bem-estar de animais de produção” é um contra senso, pois a preocupação com o bem-estar implica em preocupar-se com a vida, e não visar sua morte ou exploração de alguma forma.
Essas duas idéias - abate e humanitário - só se harmonizam quando a morte do animal atende aos seus próprios interesses, como no caso em que o animal padece de uma enfermidade grave e incurável e a continuidade de sua vida representa um sofrimento. Nesses casos, a eutanásia, dar fim a uma vida seguindo uma técnica menos dolorosa, pode ser classificada como humanitária, e uma preocupação com o bem-estar.
As organizações e campanhas que pregam pelo abate humanitário alegam que esse é um modo de evitar o sofrimento desnecessário dos animais que precisam ser abatidos. Mas o que é o “sofrimento necessário” e o que diz que animais “precisam ser abatidos”?
O abate de animais para consumo não é, de forma alguma, uma necessidade. As pes soas podem até comer carne porque querem, porque gostam ou porque sentem ser necessário, mas ninguém pode alegar que isso seja uma necessidade orgânica do ser humano.
Porém, se comer carne é hoje uma opção, não comê-la também o é. Se uma pessoa sinceramente sente que animais não devem sofrer para servir de alimento para os seres humanos, seria mais lógico que essa pessoa adotasse o vegetarianismo, ao invés de ficar inventando subterfúgios para continuar comendo animais sob a alegação de que esses não sofreram.
A insensibilização que antecede o abate não assegura que o processo todo seja livre de crueldades, especialmente porque o sofrimento não pode ser quantificado com base em contusões e mugidos de dor. Qualquer que seja o método, os animais perdem a vida e isso por si só já é cruel.
Caso todo o problema inerente ao abate de uma criatura sensível se resumisse à dor perceptível, matar um ser huma no por essa mesma técnica não deveria ser considerado um crime. Caso o conceito de abate humanitário fizesse sentido, atordoar um ser humano com uma marretada na cabeça antes de sangrá-lo e desmembrá-lo não seria um crime, menos ainda matá-lo com um tiro certeiro na cabeça.
Está claro que a idéia de abate humanitário não cabe, e nem atende aos interesses dos animais. Mas se não atende aos interesses dos animais, ao interesse de quem ele atende?
A questão é bastante complexa, porque envolve ideologias, forças do mercado, psicologia do consumidor e política, entre outros assuntos. O conceito de abate humanitário atende aos interesses de diferentes grupos (pecuaristas, grupos auto-intitulados “protetores de animais”, políticos, etc.) não necessariamente integrados entre si.
Pecuaristas tem interesse no chamado abate humanitário porque ele não implica em gastos para o produtor, mas investimentos que se revertem em lucros. A carne de animais abatidos “humanitariamente” tem um valor agregado. O consumidor paga um preço diferenciado por acreditar que está consumindo um produto diferenciado. Possuir um selo de “humanidade” em sua carne significa acesso a mercados mais exigentes, como o europeu. Além disso, verificou-se cientificamente que o manejo menos truculento dos animais reflete positivamente na qualidade do produto final, portanto, mudanças nesse manejo atendem aos interesses do pecuarista pois melhoram a produção e agregam ao produto.
Os chamados protetores de animais tem interesses no abate humanitário, mas não porque este é condizente com o interesse dos animais. Em verdade esses “protetores“ não se preocupam com animais, talvez sim com cães e gatos, mas não com animais ditos “de produção”. Esses “protetores de animais” não os protegem, eles os criam, depois os matam e depois os comem. Eles podem não criá-los nem ma tá-los, mas certamente os comem e mesmo quando não o fazem por algum motivo, não se opõe a que outros o façam.
“Protetores de animais” lucram com o conceito de abate humanitário, pois isso lhes rende a possibilidade de fazerem parte do mercado. Há entidades de “proteção” animal que se especializaram em matar animais. Sob a pretensão de estarem ajudando aos animais, elas mantém fazendas-modelo onde pecuaristas podem aprender de que forma melhorar sua produção de carne, leite e ovos e de que forma matar animais de uma maneira mais aceitável pelo ponto de vista do consumidor comum. Podem também lucrar servindo como consultores em frigoríficos.
Simultaneamente, essas entidades fazem propaganda no sentido de convencer o consumidor de que todo o problema relacionado ao consumo de carne encontra-se na procedência da carne, na forma como os animais são mortos, e não no fato de que eles são mortos em si. A fórmula é mu ito bem sucedida, pois essas entidades acabam gozando de bom prestígio entre pecuaristas e consumidores comuns, não se opondo a quase ninguém. Políticos vêem na aliança com essas entidades a certeza de reeleição, e por isso elas contam também com seu apoio.
Exercendo seu poder para educar as pessoas ao “consumo responsável” de carne, essas entidades não pedem que as pessoas façam nada diferente do que já faziam. Elas não propõe uma mudança de fato em favor dos animais, pois os padrões de consumo da população mantêm-se os mesmos e os animais continuam a ser explorados. A diferença está no fato de que essas campanhas colocam a entidade em evidência. A entidade se promove, deixando a impressão de que ela faz algo de realmente importante em nome de uma boa causa. Dessa forma as pessoas realizam doações e manifestam seu apoio, ainda que sem saberem ao certo o que estão apoiando.
Com a carne abatida de forma “hum anitária”, o consumidor se sente mais a vontade para continuar consumindo carne, pois o incômodo gerado pela idéia de que é errado matar animais para comer é encobrida pela idéia de que, naqueles casos, os animais não sofreram para morrer. E o pecuarista lucra mais porque pode cobrar um preço maior por seus produtos, bem como colocar seus produtos em mercados mais exigentes.
De toda forma, os interesses desses grupos não coincide com os interesses dos animais, e por esse motivo não faz sentido que esses grupos utilizem nomenclaturas tais como como 'bem-estar' e 'humanitário' , que podem vir a dar essa impressão.
Entidades que promovem o abate humanitário não protegem animais, mas sim promovem sua exploração. Elas estão alinhadas com os setores produtivos, que exploram os animais e não com os animais. Se elas protegessem animais trabalhariam pelo melhor de seus interesses. Seriam eles mesmos vegetarianos e não consumido res de carne. No entanto, adotando sua postura e sua retórica, não desagradam a praticamente ninguém, e dessa maneira enriquecem e ganham influência.
Entidades que realmente promovem o bem dos animais se esforçam em ensinar às pessoas que animais jamais devem ser usados para atender às nossas vontades. Elas devem se posicionar de forma clara a mostrar que comer animais não é uma opção ética, e que não importa que métodos utilizemos de criação e abate, isso não mudará a realidade de que animais não são produtos e que o problema de sua exploração não se limita à forma como o fazemos.
Ainda que uma campanha pelo vegetarianismo provavelmente conte com menos popularidade e menor adesão da população, até porque isso demanda uma mudança verdadeira na vida das pessoas, certamente uma campanha nesse sentido atende ao interesse real dos animais.
Ainda que reconhecendo que abater animais com menos crueldade à © menos ruim do que abatê-los com mais crueldade, repudiamos que o abate que envolve menor crueldade seja objeto de incentivo. Eles não deveriam ser incentivados, premiados, promovidos ou elogiados, porque um pouco menos cruel não é sinônimo de sem crueldade, e só porque é um pouco mais controlado não quer dizer que é certo ou correto.
Publique aqui sua ação, seu desejo por um mundo melhor para todos os seres - Sempre podemos mais do que nos foi dito podermos -
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terça-feira, 25 de maio de 2010
Abate humanitário
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Façamos de 2010 um Feliz Ano Novo. Podemos fazê-lo!
por Rafael Bán Jacobsen
> Sendo um físico teórico, um dos meus instrumentos de trabalho mais preciosos
> é a matemática. Por isso, com o tempo, apaixonei-me pelos números e, cada
> vez mais, enxergo neles uma beleza ímpar. Há ocasiões em que quase chego a
> duvidar de que sou um físico legítimo, pois a matemática envolvida nos
> problemas de pesquisa às vezes me fascina muito mais do que as questões
> físicas em si. Ao acompanharem meus trabalhos, alguns colegas, em tom de
> galhofa, dizem: “Olha, só posso parabenizá-lo por ter entrado para o time
> dos matemáticos puros.” Outros, mais austeros, aconselham: “Acho que você
> deveria perder menos tempo com a matemática e mais tempo com a física.” Mas
> eu sou teimoso e ainda acho que uma equação fala mais do que três bilhões e
> meio de palavras. A beleza dos números me seduz.
>
> Todavia, sou um caso quase isolado: a maioria das pessoas detesta lidar com
> números, torce o nariz para fórmulas, sofre engulhos só de ver um gráfico.
> Mas sigo convicto da verdadeira maravilha que os números representam. Não é
> fantástico perceber, embora não se saiba a razão, que qualquer número par
> pode ser escrito como a soma de dois números primos? Não é simplesmente de
> cair o queixo que uma mesma proporção esteja presente em fenômenos tão
> distintos quanto a multiplicação de indivíduos nas sucessivas gerações de um
> casal de coelhos e também em diversas medidas do corpo humano (a altura
> total e a medida do umbigo até o chão; a altura do crânio e a medida da
> mandíbula até o alto da cabeça; a medida da cintura até a cabeça e o tamanho
> do tórax; etc.)? Ou, mais fundamentalmente, não é desconcertante o fato de
> que um mesmo conjunto de símbolos, uma mesma construção lógica, que é a
> matemática, sirva bem a propósitos tão prosaicos quanto contar conchinhas na
> beira da praia mas também nos permita calcular há quantos bilhões de anos
> nosso universo existe?
>
> Sim, os números estão repletos de beleza, mas também podem ser extremamente
> cruéis. Há contextos em que a beleza dos números se esvazia por completo;
> então, a matemática já não é capaz de provocar qualquer sensação de enlevo.
> Ao contrário, nesses casos, a matemática torna-se capaz de trazer à tona
> tudo que há de pior em nós, seres humanos: a desesperança, a revolta, o
> ódio. Os números que descrevem o holocausto animal constituem um desses
> casos.
>
> Em 2003, com base nas estatísticas da FAO (Food and Agriculture Organization
> of the United Nations) sobre agricultura, o Secretariado da União
> Vegetariana Europeia, apresentou o número de animais mortos no mundo para
> consumo humano durante aquele ano. Os números foram estabelecidos a partir
> de relatórios provenientes de mais de 210 países, mas devemos levar em conta
> que alguns países e territórios não fornecem dados. Os números foram os
> seguintes:
>
> - Galinhas e frangos: 45 bilhões e 900 milhões
>
> - Patos: 2 bilhões e 260 milhões
>
> - Porcos: 1 bilhão e 240 milhões
>
> - Coelhos: 857 milhões
>
> - Perus: 691 milhões
>,
> - Gansos: 533 milhões
>
> - Carneiros, ovelhas, cordeiros: 515 milhões
>
> - Cabras: 345 milhões
>
> - Bois, vacas, vitelos: 292 milhões
>
> - Roedores: 65 milhões
>
> - Pombos e outras aves: 63 milhões
>
> - Búfalos: 23 milhões
>
> - Cavalos: 4 milhões
>
> - Asnos, mulas, machos: 3 milhões
>
> - Camelos e outros camelídeos: 2 milhões
>
> A matéria do Centro Vegetariano* sobre o tema alerta ainda que a soma de
> todos esses números fornece um total de mais de 50 bilhões de animais, sem
> ter em conta os animais aquáticos (peixes e crustáceos). Os números
> referem-se apenas aos animais abatidos nos matadouros. Excluem-se os animais
> de criação extensiva (geralmente para consumo doméstico), assim como os que
> são alvo da caça, difíceis de contabilizar por não haver qualquer tipo de
> controle. Certamente não estão incluídos nos números os desafortunados
> animais assassinados em rituais religiosos e tampouco os cães e gatos
> exterminados em sua globalizada Auschwitz particular, os famosos centros de
> controle de zoonoses. De tudo isso, só podemos depreender que a realidade é
> muito pior.
>
> Diante desses números, toda beleza se esvai, escorre feito o sangue dos
> inocentes animais mortos em nome de nossos vícios e de nossa ganância,
> restando, então, a carcaça exangue do puro horror. São dados antigos, mas
> basta olhar ao redor para perceber que as coisas não podem ter melhorado (e,
> nesse caso, mesmo que os números caíssem pela metade, a chacina ainda teria
> dimensões dantescas).
>
> Em um trabalho publicado em 2001, Luiz Antonio Pinazza, redator de pecuária
> e política agrícola da Revista Agroanalysis**, da Fundação Getúlio Vargas,
> joga um balde de água fria no otimismo vegetariano:
>
> *A formulação das tendências de consumo é investigada pelo The International
> Food Policy Research Institute (IFPRI), seguindo um modelo alimentar mundial
> em que se incluem dados originários de 37 países e grupos de países e 18
> produtos. Conhecido como Impact (International Model for Policy Analysis of
> Agricultural Consumption), o cenário do início dos anos 90 até 2020 prevê um
> aumento do consumo da carne e do leite de respectivamente 1,8 e 3,3% nos
> países em vias de desenvolvimento e de 0,6 e 0,2% nos países desenvolvidos.
> Ou seja, até 2020, em toneladas métricas, os países em vias de
> desenvolvimento consumirão mais 100 milhões de toneladas de carne e mais 223
> milhões de leite. *
>
> Resumo da ópera: o número de animais mortos só vem crescendo e vai crescer
> ainda mais. Se, em 2003, as estatísticas mais modestas apontavam 50 bilhões
> de vítimas, hoje, no final de 2009, estamos, certamente, encerrando um ano
> em que tal número foi superado e vamos receber, de braços abertos, um novo
> ano em que, mais uma vez, o recorde será batido. Ano novo, vida nova?
> Infelizmente, penso que não: ano novo, velhos números; ano novo, idênticas
> atrocidades. Um interessante testemunho do século XIX pode ajudar a ilustrar
> a constância do banho de sangue em que vivemos imersos.
>
> O romancista russo Leon Tolstói (1828-1910), por sua vez, levou a cabo a
> experiência à qual a maior parte de nós se recusa, aquela mesma experiência
> considerada pelo filósofo escocês John Oswald (1760-1793) como um alerta à
> sensibilidade natural do homem: Tolstói visitou um matadouro. O escritor,
> bem como qualquer vegetariano de qualquer outra época, estava acostumado a
> viver em uma sociedade erigida sobre a exploração animal. Já ouvira todas as
> razões antigas e conhecidas pelas quais, supostamente, matar animais para
> comer é aceitável e até natural, coisas como “Deus permite”, ou “todo mundo
> faz assim”. A respeito disso, escreveu ele:
>
> *Não existe mau cheiro, som, monstruosidade aos quais o homem não consiga se
> acostumar a ponto de deixar de ver, escutar e cheirar a aparência, o som e o
> odor do mal.*
>
> Tal convicção reforçou-se ainda mais com sua visita ao matadouro, descrita
> por ele nas seguintes palavras:
>
> *(…) na longa sala, já impregnada com o cheiro de sangue, só havia dois
> açougueiros. Um soprava a perna de um carneiro morto e batia no estômago
> inchado com a mão; o outro, um rapaz de avental emplastado de sangue, fumava
> um cigarro torto. (…) Depois de mim entrou um homem, aparentemente um
> ex-soldado, trazendo um jovem carneiro de um ano, preto com uma marca branca
> no pescoço, de patas amarradas. Este animal ele o pôs sobre uma das mesas,
> como se numa cama. O soldado velho saudou os açougueiros, que evidentemente
> conhecia, e começou a perguntar quando o seu patrão lhes permitia ir embora.
> O camarada com o cigarro aproximou-se com o facão, afiou-o na borda da mesa
> e respondeu que estavam de folga nos feriados. O carneiro vivo estava ali
> deitado, tão silencioso quanto o morto e inflado, a não ser por sacudir
> nervosamente o rabo curto e os lados a se alçarem com mais rapidez que de
> costume. O soldado baixou gentilmente, sem esforço, a cabeça levantada; o
> açougueiro, sem parar de conversar, agarrou com a mão esquerda a cabeça do
> carneiro e cortou-lhe a garganta. O animal tremeu, e o rabinho endureceu e
> parou de abanar. O camarada, enquanto esperava o sangue correr, começou a
> reacender o seu cigarro, que se apagara. O sangue corria, e o carneiro
> começou a agonizar. A conversa continuou sem a mínima interrupção. Era
> horrivelmente revoltante. *
>
> Para nós, hoje, seria um alívio (ainda que um alívio questionável) descobrir
> que os matadouros de agora são menos “revoltantes” do que aquele que Tolstói
> descreve. A verdade é bem outra. A frieza com que os animais são mortos é
> exatamente a mesma. São diferentes apenas duas coisas: hoje, os animais são
> mortos em escala industrial, no que poderíamos de chamar de verdadeiras
> “linhas de desmontagem”, que contam com as mais bizarras tecnologias
> (esteiras com ganchos para suspender as vítimas, serras elétricas, tonéis de
> escalda etc.); além disso, os matadouros não param mais nos feriados –
> funcionam noite e dia, ininterruptamente, para atender a imensa e crescente
> demanda por carne. O que mudou, em suma, foram os números, muito mais
> grandiloquentes do que seria capaz de imaginar o mais megalomaníaco dos
> genocidas.
>
> Abro uma revista que assino e que acabo de receber em casa, uma publicação
> da comunidade judaica, e encontro mais uma matéria sobre os horrores
> perpetrados pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Descubro que, apesar de
> o número exato de pessoas exterminadas pelos nazistas nos campos de
> concentração ainda ser objeto de pesquisa e debate, as estimativas mais
> avantajadas apontam para 3.5 milhões de poloneses não-judeus, 3.5 milhões de
> poloneses judeus, 2.5 milhões de judeus de outras nacionalidades, 6 milhões
> de civis eslavos, 4 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, 1.5
> milhões de dissidentes políticos, 800 000 ciganos, 300 000 deficientes, 25
> 000 homossexuais, 5 000 Testemunhas de Jeová, fornecendo um total de 22 130
> 000 pessoas (sim, mais de 22 milhões). Faço mais um rápido cálculo mental e
> começo a rir: esse número representa mirrados 0,04% em comparação com os
> tais de 50 bilhões de animais mortos a cada ano. Súbito, a imensa tragédia
> do holocausto adquire contornos de brincadeira de criança. Olho para a
> televisão e vejo uma repórter alarmada informar que, apesar da constante
> queda nos números, mais de 2 milhões de pessoas ainda morrem em decorrência
> da AIDS todos os anos. Faço uma ágil regra-de-três, descubro que esse número
> – 2 milhões – é o número de animais oficialmente assassinados em apenas 20
> minutos e caio na gargalhada. Aprimorando o ensaiado olhar de luto, a
> repórter passa à nova manchete, a qual ela própria define como “uma
> carnificina”: 38 mortos no feriado de Natal nas estradas federais de Minas
> Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Recuso-me a fazer qualquer conta sobre
> isso; naquele momento, a notícia soa-me completamente ridícula, algo que nem
> merece ser computado.
>
> Como disse, em certos casos, a matemática torna-se capaz de trazer à tona
> tudo que há de pior em nós, seres humanos, inclusive a frieza perante a
> desgraça. É quase impossível não ser sufocado por tal número – 50 bilhões!
> –, frente ao qual todas as misérias humanas parecem ínfimas, desprezíveis,
> negligenciáveis, assim como aqueles centésimos e milésimos após a vírgula
> que são dispensados quando, em um problema matemático, enunciamos a resposta
> final. Não acho bonito, não é isso o que desejo, mas a frieza dos números
> toma conta de mim. Viro um cubo de gelo. Insensível.
>
> É claro que a maneira mais decente de encarar esses funestos eventos, a
> matança de animais humanos e não-humanos, é pensar sobre o drama individual,
> sobre a experiência dolorosa de cada um deles, sobre a tortura física e
> mental que cada qual, intimamente, teve de suportar antes da morte. Quando
> resumimos (ou ocultamos) tudo isso através de números, deixamos de lado a
> real dimensão do drama e corremos o risco da insensibilização. É, de fato,
> uma pena que sejamos obrigados a conviver com estatísticas tão berrantes e
> macabras. E é ainda mais lastimável que, ao que tudo indica, essas
> estatísticas, no ano que se inicia, venham a ser ainda mais berrantes e mais
> macabras. Recuso-me, portanto, a festejar mais um ciclo de matança que se
> inicia. Enquanto todos estiverem fazendo a tradicional contagem regressiva
> para a chegada do novo ano, permanecerei calado. Minha contagem particular
> começará à meia-noite em ponto: um, dois, três, quatro, cinco… e vou
> contabilizando, em tempo real, os animais mortos nesse recém-nascido 2010.
> Mas a matemática, nessas horas, é implacável, e eu logo descubro ser
> impossível a tarefa: são mais de 38 000 assassinatos a cada segundo.
>
> Ao redor do mundo, o ano já se inicia com a tétrica ceia, repleta de corpos
> chamuscados sobre as mesas, modesto prenúncio de tudo que está por vir.
> Paradoxalmente, as pessoas desejam paz umas às outras, com as bocas cheias
> de nacos de carne. Tenho vontade de repreendê-las, “Tirem o cadáver da boca
> para falar!”, mas fico quieto. Penso novamente em Tolstói, que há muito já
> alertava sobre quão vãos serão todos nossos anseios de paz enquanto a
> violência fizer parte de nossos atos corriqueiros. Dizia ele: “Enquanto
> houver matadouros, haverá campos de guerra”. Haverá mesmo.
>
> Mais uma vez, os galináceos se salvarão, afinal ciscam para trás e,
> portanto, não é de bom agouro devorá-los em noite re réveillon; os porcos,
> no entanto, fuçam para a frente, e, por isso, tornam-se os defuntos mais
> cobiçados. O leitão da ceia é apenas um infeliz que se adiantou às
> estatísticas. Enquanto o porco fuça para a frente, fica para trás, bem para
> trás, perdendo-se na poeira da distância, qualquer sinal de escrúpulo ético.
>
>
> Um novo ano se anuncia. Vai começar tudo de novo...
Ops, aqui termina o que diz o autor do texto acima. No entanto, tenho boas notícias: Tudo isso pode ser mudado e com melhorias para nossa saúde física, emocional, social, etc. Clique aqui e leia as boas notícias que escreví há muito...
> Sendo um físico teórico, um dos meus instrumentos de trabalho mais preciosos
> é a matemática. Por isso, com o tempo, apaixonei-me pelos números e, cada
> vez mais, enxergo neles uma beleza ímpar. Há ocasiões em que quase chego a
> duvidar de que sou um físico legítimo, pois a matemática envolvida nos
> problemas de pesquisa às vezes me fascina muito mais do que as questões
> físicas em si. Ao acompanharem meus trabalhos, alguns colegas, em tom de
> galhofa, dizem: “Olha, só posso parabenizá-lo por ter entrado para o time
> dos matemáticos puros.” Outros, mais austeros, aconselham: “Acho que você
> deveria perder menos tempo com a matemática e mais tempo com a física.” Mas
> eu sou teimoso e ainda acho que uma equação fala mais do que três bilhões e
> meio de palavras. A beleza dos números me seduz.
>
> Todavia, sou um caso quase isolado: a maioria das pessoas detesta lidar com
> números, torce o nariz para fórmulas, sofre engulhos só de ver um gráfico.
> Mas sigo convicto da verdadeira maravilha que os números representam. Não é
> fantástico perceber, embora não se saiba a razão, que qualquer número par
> pode ser escrito como a soma de dois números primos? Não é simplesmente de
> cair o queixo que uma mesma proporção esteja presente em fenômenos tão
> distintos quanto a multiplicação de indivíduos nas sucessivas gerações de um
> casal de coelhos e também em diversas medidas do corpo humano (a altura
> total e a medida do umbigo até o chão; a altura do crânio e a medida da
> mandíbula até o alto da cabeça; a medida da cintura até a cabeça e o tamanho
> do tórax; etc.)? Ou, mais fundamentalmente, não é desconcertante o fato de
> que um mesmo conjunto de símbolos, uma mesma construção lógica, que é a
> matemática, sirva bem a propósitos tão prosaicos quanto contar conchinhas na
> beira da praia mas também nos permita calcular há quantos bilhões de anos
> nosso universo existe?
>
> Sim, os números estão repletos de beleza, mas também podem ser extremamente
> cruéis. Há contextos em que a beleza dos números se esvazia por completo;
> então, a matemática já não é capaz de provocar qualquer sensação de enlevo.
> Ao contrário, nesses casos, a matemática torna-se capaz de trazer à tona
> tudo que há de pior em nós, seres humanos: a desesperança, a revolta, o
> ódio. Os números que descrevem o holocausto animal constituem um desses
> casos.
>
> Em 2003, com base nas estatísticas da FAO (Food and Agriculture Organization
> of the United Nations) sobre agricultura, o Secretariado da União
> Vegetariana Europeia, apresentou o número de animais mortos no mundo para
> consumo humano durante aquele ano. Os números foram estabelecidos a partir
> de relatórios provenientes de mais de 210 países, mas devemos levar em conta
> que alguns países e territórios não fornecem dados. Os números foram os
> seguintes:
>
> - Galinhas e frangos: 45 bilhões e 900 milhões
>
> - Patos: 2 bilhões e 260 milhões
>
> - Porcos: 1 bilhão e 240 milhões
>
> - Coelhos: 857 milhões
>
> - Perus: 691 milhões
>,
> - Gansos: 533 milhões
>
> - Carneiros, ovelhas, cordeiros: 515 milhões
>
> - Cabras: 345 milhões
>
> - Bois, vacas, vitelos: 292 milhões
>
> - Roedores: 65 milhões
>
> - Pombos e outras aves: 63 milhões
>
> - Búfalos: 23 milhões
>
> - Cavalos: 4 milhões
>
> - Asnos, mulas, machos: 3 milhões
>
> - Camelos e outros camelídeos: 2 milhões
>
> A matéria do Centro Vegetariano* sobre o tema alerta ainda que a soma de
> todos esses números fornece um total de mais de 50 bilhões de animais, sem
> ter em conta os animais aquáticos (peixes e crustáceos). Os números
> referem-se apenas aos animais abatidos nos matadouros. Excluem-se os animais
> de criação extensiva (geralmente para consumo doméstico), assim como os que
> são alvo da caça, difíceis de contabilizar por não haver qualquer tipo de
> controle. Certamente não estão incluídos nos números os desafortunados
> animais assassinados em rituais religiosos e tampouco os cães e gatos
> exterminados em sua globalizada Auschwitz particular, os famosos centros de
> controle de zoonoses. De tudo isso, só podemos depreender que a realidade é
> muito pior.
>
> Diante desses números, toda beleza se esvai, escorre feito o sangue dos
> inocentes animais mortos em nome de nossos vícios e de nossa ganância,
> restando, então, a carcaça exangue do puro horror. São dados antigos, mas
> basta olhar ao redor para perceber que as coisas não podem ter melhorado (e,
> nesse caso, mesmo que os números caíssem pela metade, a chacina ainda teria
> dimensões dantescas).
>
> Em um trabalho publicado em 2001, Luiz Antonio Pinazza, redator de pecuária
> e política agrícola da Revista Agroanalysis**, da Fundação Getúlio Vargas,
> joga um balde de água fria no otimismo vegetariano:
>
> *A formulação das tendências de consumo é investigada pelo The International
> Food Policy Research Institute (IFPRI), seguindo um modelo alimentar mundial
> em que se incluem dados originários de 37 países e grupos de países e 18
> produtos. Conhecido como Impact (International Model for Policy Analysis of
> Agricultural Consumption), o cenário do início dos anos 90 até 2020 prevê um
> aumento do consumo da carne e do leite de respectivamente 1,8 e 3,3% nos
> países em vias de desenvolvimento e de 0,6 e 0,2% nos países desenvolvidos.
> Ou seja, até 2020, em toneladas métricas, os países em vias de
> desenvolvimento consumirão mais 100 milhões de toneladas de carne e mais 223
> milhões de leite. *
>
> Resumo da ópera: o número de animais mortos só vem crescendo e vai crescer
> ainda mais. Se, em 2003, as estatísticas mais modestas apontavam 50 bilhões
> de vítimas, hoje, no final de 2009, estamos, certamente, encerrando um ano
> em que tal número foi superado e vamos receber, de braços abertos, um novo
> ano em que, mais uma vez, o recorde será batido. Ano novo, vida nova?
> Infelizmente, penso que não: ano novo, velhos números; ano novo, idênticas
> atrocidades. Um interessante testemunho do século XIX pode ajudar a ilustrar
> a constância do banho de sangue em que vivemos imersos.
>
> O romancista russo Leon Tolstói (1828-1910), por sua vez, levou a cabo a
> experiência à qual a maior parte de nós se recusa, aquela mesma experiência
> considerada pelo filósofo escocês John Oswald (1760-1793) como um alerta à
> sensibilidade natural do homem: Tolstói visitou um matadouro. O escritor,
> bem como qualquer vegetariano de qualquer outra época, estava acostumado a
> viver em uma sociedade erigida sobre a exploração animal. Já ouvira todas as
> razões antigas e conhecidas pelas quais, supostamente, matar animais para
> comer é aceitável e até natural, coisas como “Deus permite”, ou “todo mundo
> faz assim”. A respeito disso, escreveu ele:
>
> *Não existe mau cheiro, som, monstruosidade aos quais o homem não consiga se
> acostumar a ponto de deixar de ver, escutar e cheirar a aparência, o som e o
> odor do mal.*
>
> Tal convicção reforçou-se ainda mais com sua visita ao matadouro, descrita
> por ele nas seguintes palavras:
>
> *(…) na longa sala, já impregnada com o cheiro de sangue, só havia dois
> açougueiros. Um soprava a perna de um carneiro morto e batia no estômago
> inchado com a mão; o outro, um rapaz de avental emplastado de sangue, fumava
> um cigarro torto. (…) Depois de mim entrou um homem, aparentemente um
> ex-soldado, trazendo um jovem carneiro de um ano, preto com uma marca branca
> no pescoço, de patas amarradas. Este animal ele o pôs sobre uma das mesas,
> como se numa cama. O soldado velho saudou os açougueiros, que evidentemente
> conhecia, e começou a perguntar quando o seu patrão lhes permitia ir embora.
> O camarada com o cigarro aproximou-se com o facão, afiou-o na borda da mesa
> e respondeu que estavam de folga nos feriados. O carneiro vivo estava ali
> deitado, tão silencioso quanto o morto e inflado, a não ser por sacudir
> nervosamente o rabo curto e os lados a se alçarem com mais rapidez que de
> costume. O soldado baixou gentilmente, sem esforço, a cabeça levantada; o
> açougueiro, sem parar de conversar, agarrou com a mão esquerda a cabeça do
> carneiro e cortou-lhe a garganta. O animal tremeu, e o rabinho endureceu e
> parou de abanar. O camarada, enquanto esperava o sangue correr, começou a
> reacender o seu cigarro, que se apagara. O sangue corria, e o carneiro
> começou a agonizar. A conversa continuou sem a mínima interrupção. Era
> horrivelmente revoltante. *
>
> Para nós, hoje, seria um alívio (ainda que um alívio questionável) descobrir
> que os matadouros de agora são menos “revoltantes” do que aquele que Tolstói
> descreve. A verdade é bem outra. A frieza com que os animais são mortos é
> exatamente a mesma. São diferentes apenas duas coisas: hoje, os animais são
> mortos em escala industrial, no que poderíamos de chamar de verdadeiras
> “linhas de desmontagem”, que contam com as mais bizarras tecnologias
> (esteiras com ganchos para suspender as vítimas, serras elétricas, tonéis de
> escalda etc.); além disso, os matadouros não param mais nos feriados –
> funcionam noite e dia, ininterruptamente, para atender a imensa e crescente
> demanda por carne. O que mudou, em suma, foram os números, muito mais
> grandiloquentes do que seria capaz de imaginar o mais megalomaníaco dos
> genocidas.
>
> Abro uma revista que assino e que acabo de receber em casa, uma publicação
> da comunidade judaica, e encontro mais uma matéria sobre os horrores
> perpetrados pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Descubro que, apesar de
> o número exato de pessoas exterminadas pelos nazistas nos campos de
> concentração ainda ser objeto de pesquisa e debate, as estimativas mais
> avantajadas apontam para 3.5 milhões de poloneses não-judeus, 3.5 milhões de
> poloneses judeus, 2.5 milhões de judeus de outras nacionalidades, 6 milhões
> de civis eslavos, 4 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, 1.5
> milhões de dissidentes políticos, 800 000 ciganos, 300 000 deficientes, 25
> 000 homossexuais, 5 000 Testemunhas de Jeová, fornecendo um total de 22 130
> 000 pessoas (sim, mais de 22 milhões). Faço mais um rápido cálculo mental e
> começo a rir: esse número representa mirrados 0,04% em comparação com os
> tais de 50 bilhões de animais mortos a cada ano. Súbito, a imensa tragédia
> do holocausto adquire contornos de brincadeira de criança. Olho para a
> televisão e vejo uma repórter alarmada informar que, apesar da constante
> queda nos números, mais de 2 milhões de pessoas ainda morrem em decorrência
> da AIDS todos os anos. Faço uma ágil regra-de-três, descubro que esse número
> – 2 milhões – é o número de animais oficialmente assassinados em apenas 20
> minutos e caio na gargalhada. Aprimorando o ensaiado olhar de luto, a
> repórter passa à nova manchete, a qual ela própria define como “uma
> carnificina”: 38 mortos no feriado de Natal nas estradas federais de Minas
> Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Recuso-me a fazer qualquer conta sobre
> isso; naquele momento, a notícia soa-me completamente ridícula, algo que nem
> merece ser computado.
>
> Como disse, em certos casos, a matemática torna-se capaz de trazer à tona
> tudo que há de pior em nós, seres humanos, inclusive a frieza perante a
> desgraça. É quase impossível não ser sufocado por tal número – 50 bilhões!
> –, frente ao qual todas as misérias humanas parecem ínfimas, desprezíveis,
> negligenciáveis, assim como aqueles centésimos e milésimos após a vírgula
> que são dispensados quando, em um problema matemático, enunciamos a resposta
> final. Não acho bonito, não é isso o que desejo, mas a frieza dos números
> toma conta de mim. Viro um cubo de gelo. Insensível.
>
> É claro que a maneira mais decente de encarar esses funestos eventos, a
> matança de animais humanos e não-humanos, é pensar sobre o drama individual,
> sobre a experiência dolorosa de cada um deles, sobre a tortura física e
> mental que cada qual, intimamente, teve de suportar antes da morte. Quando
> resumimos (ou ocultamos) tudo isso através de números, deixamos de lado a
> real dimensão do drama e corremos o risco da insensibilização. É, de fato,
> uma pena que sejamos obrigados a conviver com estatísticas tão berrantes e
> macabras. E é ainda mais lastimável que, ao que tudo indica, essas
> estatísticas, no ano que se inicia, venham a ser ainda mais berrantes e mais
> macabras. Recuso-me, portanto, a festejar mais um ciclo de matança que se
> inicia. Enquanto todos estiverem fazendo a tradicional contagem regressiva
> para a chegada do novo ano, permanecerei calado. Minha contagem particular
> começará à meia-noite em ponto: um, dois, três, quatro, cinco… e vou
> contabilizando, em tempo real, os animais mortos nesse recém-nascido 2010.
> Mas a matemática, nessas horas, é implacável, e eu logo descubro ser
> impossível a tarefa: são mais de 38 000 assassinatos a cada segundo.
>
> Ao redor do mundo, o ano já se inicia com a tétrica ceia, repleta de corpos
> chamuscados sobre as mesas, modesto prenúncio de tudo que está por vir.
> Paradoxalmente, as pessoas desejam paz umas às outras, com as bocas cheias
> de nacos de carne. Tenho vontade de repreendê-las, “Tirem o cadáver da boca
> para falar!”, mas fico quieto. Penso novamente em Tolstói, que há muito já
> alertava sobre quão vãos serão todos nossos anseios de paz enquanto a
> violência fizer parte de nossos atos corriqueiros. Dizia ele: “Enquanto
> houver matadouros, haverá campos de guerra”. Haverá mesmo.
>
> Mais uma vez, os galináceos se salvarão, afinal ciscam para trás e,
> portanto, não é de bom agouro devorá-los em noite re réveillon; os porcos,
> no entanto, fuçam para a frente, e, por isso, tornam-se os defuntos mais
> cobiçados. O leitão da ceia é apenas um infeliz que se adiantou às
> estatísticas. Enquanto o porco fuça para a frente, fica para trás, bem para
> trás, perdendo-se na poeira da distância, qualquer sinal de escrúpulo ético.
>
>
> Um novo ano se anuncia. Vai começar tudo de novo...
Ops, aqui termina o que diz o autor do texto acima. No entanto, tenho boas notícias: Tudo isso pode ser mudado e com melhorias para nossa saúde física, emocional, social, etc. Clique aqui e leia as boas notícias que escreví há muito...
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