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sábado, 17 de dezembro de 2011

O agradecimento dos animais pelo Natal – parte 2

o agradecimento dos animais pelo Natal

por Marcio de Almeida Bueno

Agradeço aos Três Reis Magos que perpetuaram a tradição de presentear nesta época do ano. Só assim eu pude sair daquela gaiolinha solitária, em frente a um vidro onde tanta gente passava e me apontava. Havia outros irmãozinhos, pequenos como eu, mas todos sozinhos em suas gaiolas. Me restava comer, dormir e fazer sujeirinhas ali mesmo, que depois o moço limpava. Agora, alguém me pegou no colo, me encheu de perfume e colocou um laço de fita vermelho no meu pescoço. Na casa nova onde cheguei, minha presença foi motivo de festa, e virei o centro das atenções, com sorrisos, brincadeiras, cafunés. Espero que seja assim para sempre. Espero que algum dia eu possa conhecer a minha mãe, e receber atenção também dela, porque eu nem lembro de se passamos algum tempo juntos. Espero que ela esteja bem.

Obrigado Jesus por ter me destinado a uma família de humanos, que me tratou bem. Cuidei da casa em troca da renovação da água do meu pote, e o direito de comer até o final todas as sobras de comida que alguém me jogava, uma vez por dia, religiosamente. Agora estou um pouco velho, meio doído, mais pateta do que sempre fui considerado ser. Ouvi reclamações nos últimos tempos. Esses dias fui levado a um passeio, no carro da família. Fomos para longe, vi lugares que nunca imaginei ver. Abriram a porta para eu tomar um ar fresco, numa estrada bem movimentada. Foram embora antes que eu pudesse perceber, tentei correr atrás mas a idade já não me permite. Estou aqui há alguns dias esperando, porque acredito que vão voltar para me buscar. Passam tantos carros, tantas famílias iguais à minha, alguns olham, mas ninguém pára. A sede é muita aqui neste acostamento, antes eu latia para os carros que eu acreditava serem da minha família, mas faltam forças. Sigo esperando aquelas pessoas conhecidas voltarem para me buscar e eu poder ir para casa. Eu tenho fé.

Obrigado bom Deus pela floresta e toda a natureza que foi o meu lar desde que nasci. Correr livre não tem preço. Mas, nos últimos tempos, ouço muito barulho, vejo humanos e máquinas fazendo limpeza na floresta. Parece que é tudo em nome do progresso, porque quem mora lá longe precisa das coisas que existem aqui na minha casa. Mas acho que as máquinas estão exagerando, pois muita floresta já não existe. Lugares onde eu dormi, comi, esperei a chuva pasar, agora é só chão, sem árvores para subir ou fazer sombra em dias de calor. Estamos todos indo para o outro lado, pois está perigoso ficar aqui. Nesses lugares onde não existe mais floresta, reparei que há animais diferentes, todos iguais e com chifres, comendo o que há no chão o dia todo. Talvez a gente estivesse ocupando muito espaço, e esses irmãos novos precisassem de lugar para ficar. Eu cedo o meu espaço, mesmo triste pela mudança, porque sei que os humanos estudam muito, e sempre sabem o que é certo, o que nós não entederemos jamais.

Obrigado Nossa Senhora, que um dia usou seu manto para envolver seu filho que nascia, e também quando ele morreu. Eu nem conheço meus filhos, mas dei minha própria pele para envolver e aquecer as costas e os pés de tantos humanos de quem não sei o nome. Vivi um bom tempo só comendo, até o dia que um caminhão veio nos buscar, depois tudo foi confuso e assustador, mas atribuo isso à minha incapacidade intelectual. Vi que outras iguais a mim eram penduradas e a pele era gentilmente retirada, já que os humanos não têm proteção e precisam da minha pele, que é grossa e resistente. Acho que pude recompensar quem me deu comida e espaço durante tanto tempo, ofertando um couro que eu já não mais vestiria, pois a morte já me levara a pastar nos campos longínquos onde habita o Nosso Senhor.

Muito obrigado Jesus pelo meu nascimento. Só acho que a minha mãe não gostou de mim, pois logo eu fui retirado de perto dela. Essa é uma dor que não esqueço. Devo tê-la feito chorar, como um dia você fez sua mãe Maria chorar. Eu ainda ouvi seu choro ao longe, e tenho certeza de que ela está na mesma fazenda que eu, mas não nos deixam nos ver. Agora eu fico parado em um lugar desconfortável, onde mal posso me mexer, e não posso nem deitar para dormir. Meu arrependimento é grande. Gostaria que intercedesse e pedisse que a minha mãe me perdoasse do que quer que eu tenha feito. Acho que já me desculpei, e quando este castigo terminar eu poderia tornar a vê-la, pois sei que mãe e filho devem estar sempre juntos, enquanto este for pequeno. Não sei falar a língua dos humanos, então quando eles se aproximam, eu só tenho o meu olhar. Eles dão risadas – o final do ano é sempre uma época de felicidade para todos – e dizem que minha carne vai estar bem macia. Eu não sei o que isso quer dizer, e prefiro não pensar nisso agora. Prefiro fazer força e lembrar dos poucos instantes que vivi ao lado da minha mãe – ela parecia tão grande e forte – em um lugar que, mesmo cercado, dava para esticar as pernas. Aqui eu não posso me virar, tudo é desconforto. Espero, sinceramente, que a ‘carne macia’ que os humanos falaram signifique a minha liberdade. Se eu pudesse escolher, ficaria comportado em uma manjedoura, sem o castigo de ficar fechado e imobilizado. Peça, Jesus, para a minha mãe me perdoar logo.

Deixo aqui minha gratidão a todos os anjos, pois nada mais honrado a um ser do que que poder abrir mão da própria vida em função da felicidade de outros. Quando nasci eu era tão pequeno, com meus irmãozinhos, e minha mãe era tão grande e gorda, que eu mal via seu rosto. Ali a maioria era grande, mas rapidamente eu tive que ir embora, e não lembro se houve um olhar de despedida da minha gorda mãe. Para onde eu fui, todos estavam de branco. Eu acho que eram anjos, pois colocavam muitos irmãos meus, que pareciam desesperados, para descansar. Ouvi dizer que a câmara fria estava nos esperando, mas eu não queria passar frio. Queria o calor da minha mãe. Queria o cheiro dos meus irmãozinhos de volta – onde estava, só havia cheiro de sangue, pois alguém devia ter se machucado muito. Poderiam ser médicos todos esses que estavam de branco. Enfim, obrigado a todos eles, pois nesta noite tão especial me deixarem descansar por sobre uma mesa bonita. Há velas, risadas e abraços. Eu acredito, do fundo do meu pequeno coração que já não está mais batendo, que eles eram anjos que vieram me buscar.

Fonte: ANDA

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O agradecimento dos animais pelo Natal ou ‘Hoje eu sou uma estrela’

Natal

por Marcio de Almeida Bueno

Esqueça o oba-oba das lojas, os empurroões no trânsito e a expectativa de folga, bebida e comilança. Somente o olhar dos animais não-humanos é verdadeiro, dentre o furacão que os engole com mais força, no final de cada ano. Os animais da pecuária encaram o fim de suas vidas – ‘eles nasceram para isso’ – enquanto contemplam o traseiro de um clone seu, nos bretes e corredores de concreto que antecedem a mesa farta preparada com tanto esmero pelas famílias de bom coração.

O olhar de quem não sabe chorar, já que a reza na hora do desespero é exclusividade na lista da racionalidade – essa qualidade que separa a humanidade das bestas-feras. O olhar de quem viu o filhote ser puxado para longe de si pelos funcionários da fazenda, esse lugar bucólico onde os animais são tratados como reis, já que optaram por isso em troca de suas liberdades.

O olhar do frango que está encaixotado, empilhado em um caminhão que passa na nossa frente quando estamos na estrada, rumo às férias. Perdemos um segundo, apenas, pensando nisso. Não há espaço para que ele nos dê um tchauzinho, talvez agradecendo pelo doce toque da morte que o aliaviará e abreviará sua existência marcada pela ausência de mãe, confinamento, horários alterados para ditar o ritmo da engorda e opressão no dia-a-dia.

‘Obrigado Papai Noel ou menino Jesus por me tirar de um aviário com outras milhares de aves. Obrigado pela ração e água que mantiveram este corpo vivo, pois ele vale pelo preço que alguém paga. Não tem o valor que minha mãe, animal como eu, instintivamente perceberia, e por isso me defenderia, em condições normais. Aqui sou um entre milhares, e não parece fazer muita diferença se eu morrer agora ou esperar o caminhão dos caixotes. Nasci de uma máquina de ovos, mas espero encontrar minha mãe, ciscando a meu lado, algum dia.

Obrigado Deus humano pela corrente que sempre existiu em torno do meu pescoço, que não me permite caminhar até o horizonte. Ou até o ponto onde há sombra, onde a água da chuva não está empoçada. Agradeço pelos dias que lembraram da minha existência, e sobras de comida chegaram até onde esta corrente permitiu alcançar. Obrigado, Papai Noel, por ter sido escolhido como animal de estimação por uma faímila de humanos.

Obrigado, espírito natalino, por eu ter puxado tanta carroça em meio à fumaça de óleo diesel, fraco, assustado e sedento, que enfim eu tombei no asfalto. A última surra que tomei do carroceiro, para que eu me levantasse, permitiu que enfim meu espírito pudesse cavalgar livre naquelas campos verdes onde quadrúpedes iguais a mim, porém belos e com longas crinas, correm sentindo o vento da natureza. Acho que o esforço que fiz diariamente para tirar meu condutor da miséria, ou pelo menos diminuir sua pobreza, foi menos do que eu poderia, entao eu aceito meu castigo.

Obrigado, família do presépio, por eu ter sido o escolhido para, ainda bebê, estar na mesa de tantas residências, para ter meu pequeno corpo saboreado em uma bonita bandeja, assado e servido à meia-noite. Ainda não entendi por que nasci e morri tão rápido, se fiz algo errado a ponto de não poder crescer um pouco mais em um lugar que, onde vi, havia outros como eu, alguns bem gordos. Mal lembro da minha mãe, mas lembro que ela não podia se virar, cercada em um gradeado enquanto mamávamos. Talvez tenha sido azar, talvez tenha sido sorte.

Obrigado meu Deus, por eu poder ajudar tanta gente a usar um xampu que não irrite os olhos, uma maquiagem que não cause problemas, um produto qualquer a ser dado de presnete neste Natal, que nunca vou saber direito, que atendeu os humanos em suas expectativas mais simples. Estive em um laboratório, cercado de pessoas de jaleco branco, durante tempo suficiente para saber que sou parte importante do progresso, que a Ciência evoluiu graças à minha dor, meu aprisionamento e tudo aquilo que os produtos geraram nos meus olhos e no meu corpo. Fico grato por ter ajudado.

Obrigado Maria, mãe de todas as mães que, zelosas como eu, dão leite a seus filhos durante anos, mesmo após o fim de sua amamentação natural. Minha vida neste estábulo, com úberes gigantes e doloridos, plugados em uma máquina, é o sacrifício que faço para a saúde humana. Não percebi, ainda, em minha mentalidade abaixo da humana, porque o leite de meus filhos vai para os filhos de outra espécie, e até quando já são adultos. Meu filhote não está mais ao alcance de minha vista, foi retirado cedo de meu lado, mas sei que o papel dele, como vitelo, ocupa espaço de respeito junto aos humanos. É alvo de muitos comentários e elogios. Pelo menos é o que imagino, pois o sacrifício é doloroso o suficiente para, respeitosamente, ousar questionar o porquê de minha existência. Mas agradeço mesmo assim, Papai Noel.

Obrigado pelas palmas cada vez que apareço no picadeiro. O olhar das crianças me faz esquecer a minha vida de tédio e imobilidade, viajando de cidade a cidade. Quem sabe um dia eu e os demais animais cheguemos ao lugar de onde viemos, que deverá ter muitas árvores, rios e espaços para correr. Enquanto isso, eu repito as manobras noite após noite, mostro os mesmos truques que, pela minha teimosia, eu custei a decorar. Quem sabe neste Natal eu ganhe uma última viagem, de volta ao habitat que jamais conheci em vida.

Obrigado Natal, por eu poder aquecer tanta gente elegante em momentos de frio. Nasci peludo tal como minha mãe, e como ela pude participar da indústria humana, essa coisa que traz tanto progresso, dando de bom grado minha própria pele para que maridos mostrem afeto à esposa, presenteando-as com belos casacos. Muita gente famosa e rica usa a pele que pode ter sido minha. Isso me enche de orgulho e faz valer o tempo que morei em uma gaiola pouco maior que meu próprio corpo. Já estava cansado de andar em círculos, lembrando dos bosques que um dia corri de cima a baixo. Mas um dia veio a dor que, por pior que tenha sido, me libertou finalmente. Ainda relutei alguns minutos, já sem pele, mas vi que a liberdade me abraçava e escurecia minhas vistas. Acho que valeu a pena, pois sou fotografado e até apareço na televisão, durante o inverno – pelo menos acredito que aquelas partes sejam minhas, cobrindo o corpo de pessoas tão bonitas e famosas. Obrigado aos responsáveis.

Obrigado a todos que vieram me assistir nesta arena. Ainda estou zonzo e ofuscado pela luz após dias de escuridão, mas já entendi que, aqui, eu sou a atração. Há um semelhante a mim, porém sem chifres e mais magro, e nele está montado um humano, com roupas garbosas e armas tão afiadas como as que já furaram tantos iguais a mim. Eu espero que tudo isto termine logo, pois o cansaço está vencendo a euforia, há tanto sangue que já não sei se é meu ou de alguém antes de mim, e está difícil fazer levantar a platéia tantas vezes. Que a morte venha me tocar com a mesma doçura da última vez que fui tocado pela minha mãe. Ela deve estar orgulhosa de um filho que resistiu até o fim, cercado de espadas, aplaudido, sangrando ajoelhado, língua de fora mas fazendo questão de participar do show até o fim. Acho que os aplausos são para mim, já que os olhares convergem para onde estou. E eu não sei onde estou.

Obrigado menino Jesus por ter nascido e feito seus iguais perceberem a necessidade de haver uma festa em seu nome, para redenção e paz, onde eu seria assado em espeto e saboreado por tantas pessoas felizes, sorridentes e em clima de fraternidade. Jamais imaginei que, sem saber falar, sem ter tido escolhas, seria eu o ponto central dos churrascos de de final de ano de tantas empresas, entidades, famílias e grupos a confraternizar. Aguardei este momento sempre em espaços com arame farpado, tal como a coroa que um dia finalmente lhe puseram na cabeça, e usei argola no nariz para que um filho seu, fiel e devoto, me conduzisse para o lugar certo. Apanhei da vida, mas quem não apanhou? Sempre soube que uma vida de aperto, confinamento, marcação a ferro quente, castração a frio e morte sobre o concreto teriam um sentido maior. Obrigado por dar um norte a minha vida. Hoje, eu sou uma estrela.

Fonte: VISTA-SE