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quarta-feira, 23 de março de 2011

BNDEs - Banco Nacional de Desenvolvimento apenas Econômico e nada Social

23/03/2011 - 10h03
Cadê o social do BNDES? - Entrevista especial com Gabriel Strautman
Por Redação IHU

O economista Gabriel Strautman é enfático ao criticar o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES às grandes obras de infraestrutura no país e, principalmente, os megaeventos planejados para acontecerem no Brasil nos próximos anos.  A principal questão levantada por Strautman na entrevista que concedeu à IHU On-Line por telefone é a falta de transparência do banco quanto aos projetos que ele financia, tanto no que diz respeito aos juros aplicados quanto aos métodos de avaliação dos projetos aprovados.  “O BNDES tem buscado fazer com que as indústrias que ele apoia se transformem em empresas orientadas para a globalização, com capacidade de disputar mercados globais.  Portanto, não estamos falando de diversificação da economia doméstica, de maior integração regional dentro do país”, relatou.

Gabriel Strautman é economista formado pela Universidade de Brasília e mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.  Atualmente, é o secretário executivo da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o papel do BNDES no setor produtivo brasileiro de hoje?  O banco tem cumprido seu papel social?


Gabriel Strautman – Não, ele não tem cumprido um papel social.  O nome do bando é Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.  Embora incorpore o social na sua sigla, ele tem focado só no plano econômico.  E tem agido num só sentido de desenvolvimento econômico que não privilegia um projeto de sociedade e economia redistributiva que reduza as desigualdades no Brasil.  O BNDES hoje cumpre cada vez mais um papel importante no financiamento da política industrial brasileira e financia uma política econômica voltada apenas para o crescimento da economia a despeito dos direitos da população, da necessidade da redução das desigualdades e do cuidado e do zelo ao meio ambiente do Brasil.

IHU On-Line – Podemos dizer que o BNDES se tornou, nos últimos anos, o principal banco financiador dos grandes projetos no Brasil?

Gabriel Strautman – Certamente, e não apenas no Brasil como também na América Latina.  O BNDES, desde 2003, se tornou uma ferramenta central no financiamento do desenvolvimento do Brasil, desbancando antigas instituições financeiras multilaterais como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no papel de principais atores do financiamento do desenvolvimento.  Isso, obviamente, do ponto de vista dos bancos.

O BNDES a partir do governo Lula se tornou o segundo maior banco de desenvolvimento do mundo.  Ele supera os financiamentos do BID e do Banco Mundial somados na América Latina.  Então, o BNDES hoje está por trás dos grandes projetos energéticos, como as usinas hidrelétricas dos rios Madeira, Jirau e Santo Antônio, assim como o questionável projeto de Belo Monte.  Além disso, está por trás dos principais projetos destruidores do meio ambiente do Brasil.  Entre seus financiados ainda estão a Companhia Siderúrgica do Atlântico e a Vale.  Hoje, o BNDES está preparado também para financiar a construção de seis usinas hidrelétricas na Amazônia Peruana.

IHU On-Line – Luciano Coutinho, presidente do BNDES, diz que muitos dos investimentos que o banco tem feito evitam, em diversos casos, que as empresas beneficiadas quebrem.  O que seria da economia brasileira atual sem o BNDES?
Gabriel Strautman – Não há dúvida que o BNDES é uma ferramenta importante para o desenvolvimento da nossa economia.  Mas o que questionamos é porque o banco financia um projeto tão polêmico quanto Belo Monte e não incentiva o avanço da pequena indústria, por exemplo?  E mais do que isso: Por que o BNDES não apoia o desenvolvimento da economia solidária?  Não há dúvida de que o BNDES é um ator importante no desenvolvimento econômico do país.  Ponto.  Mas ele precisa financiar outras coisas e não apenas os projetos cuja viabilidade econômica é questionável.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a forma como as empresas se utilizam dos financiamentos promovidos pelo banco?
Gabriel Strautman – A estratégia do BNDES no apoio às indústrias no Brasil se dá de maneira concentrada e problemática.  Isso porque não existe transparência na maneira como ele apoia esses projetos.  Por exemplo: o banco, quando analisa um projeto como Belo Monte ou a própria Vale, não diz para a sociedade brasileira como faz essa avaliação; ele não apresenta como classifica esses projetos e empresas quanto ao risco ambiental; e não mostra a taxa de juros com a qual ele subsidia os financiados.

O BNDES não tem transparência.  O banco sempre alega sigilo bancário para não repassar essas informações.  E justamente por isso não temos elementos para entender a forma como o BNDES trata essas empresas e projetos.  E isso demonstra que o banco trata de maneira privilegiada um pequeno grupo de grandes empresas que recebem verba do tesouro nacional a partir da emissão de títulos da dívida pública brasileira.  Ou seja, são todos os brasileiros e brasileiras que beneficiam empresas concentradoras da atividade econômica e causam grandes impactos na vida das pessoas e também do meio ambiente.

IHU On-Line – Em relação à Copa do Mundo de Futebol de 2014, como avalia o apoio que o BNDES tem dado às obras produzidas para esse evento?

Gabriel Strautman – Com base nisso tudo que acabei de falar, que olhamos para a atuação do banco no que diz respeito aos financiamentos dos megaeventos e levantamos uma série de questionamentos.  Quando olhamos o que o BNDES está fazendo, percebemos que ele está preparado para dar um apoio de 4,8 bilhões de reais apoiando ações de infraestrutura urbana, mas também na reforma de estádios.

Em termos de arenas esportivas, a nossa questão é a seguinte: em várias cidades questiona-se a construção de novos estádios quando o que poderia ser feito era justamente a reforma de arenas antigas.  E o BNDES não explicita as razões pelas quais ele preferiu apostar na construção de uma nova arena em vez de reformar uma que já existe.  Como o banco não tem transparência, não temos dados suficientes para cobrar esse tipo de questão.

No Rio de Janeiro vai ser construída uma grande via urbana que vai ligar a Tijuca ao aeroporto internacional da cidade.  Ora, quando a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) defenderam da Copa do Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos eles falaram que as Olimpíadas trariam benefícios para a cidade e para o conjunto da sociedade como um todo.  Então, por que apenas ligar uma zona da cidade que já é conhecida pela valorização imobiliária com o aeroporto internacional?  Estamos falando que só uma parte da cidade pode receber melhoras em termos de infraestrutura urbana?  Essas questões também valem para a Caixa Econômica Federal, que vai financiar todo tipo de mobilidade urbana necessária.  Por que não consultaram a população como um todo?  Por que só as intervenções defendidas pelo COB e CBF foram levadas adiante?  É dinheiro público que estão usando!

O discurso do Sr.  Carlos Arthur Nuzman e do Sr.  Ricardo Teixeira, quando esses eventos foram anunciados para o Brasil, era de que as duas iniciativas seriam financiadas com dinheiro privado.  E agora vemos que 98,5% do dinheiro que vai financiar as iniciativas para a Copa e para as Olimpíadas é público.

IHU On-Line – Quem sai beneficiado dessa aliança entre o BNDES e os megaeventos como a Copa e as Olimpíadas?

Gabriel Strautman – Em primeiro lugar, todo mundo que está associado a esse projeto.  Comitê Olímpico Internacional (COI), Federação Internacional de Futebol (Fifa), CBF e COB, esses senhores que se intitulam donos dos jogos, são os principais responsáveis por se capitalizarem nessa história.  São eles que fazem contratos com as grandes empresas apoiadoras, seja do campo imobiliário seja as principais empresas de marketing esportivo.  É um punhado de grandes empresas, tais como Odebrecht e Camargo Correa.

IHU On-Line – A princípio, a Copa do Mundo vai custar 17 bilhões de reais, enquanto isso se gasta 13 bilhões de reais com o Bolsa Família por ano.  Como vê as cifras da Copa quando colocadas frente a frente com projetos que foram tidos como prioritários pelo governo?

Gabriel Strautman – A Dilma deu uma declaração em que afirmou que os investimentos para a Copa podem chegar a 33 bilhões de reais.  Precisamos fazer esse e ainda outros cálculos como: quanto se gasta com reforma agrária no Brasil por ano?  Quanto é o salário de um professor do Ensino Médio das principais cidades brasileiras?  Com o dinheiro que vai ser gasto com a Copa do Mundo de futebol quantos professores poderiam ser contratados e qual salário poderia ser pago com isso?  Essas comparações são urgentes!

O Brasil só tem privilegiado grandes projetos de infraestrutura e sempre com o discurso que isso vai desenvolver a economia, que vai gerar emprego.  Esse mesmo discurso vale para os megaeventos.  “Os megaeventos vão trazer investimentos internacionais”... “Empregos serão gerados”.  Só que são empregos que vão ser gerados até o fim da Copa.  E depois?  Além disso, serão empregos gerados de maneira precária, ou seja, a maioria será terceirizada com menos direitos trabalhistas.  É preciso que se diga isso.

Por outro lado, se investimentos de longo prazo forem feitos, como reforma agrária, educação, mobilidade urbana, acesso às cidades, avanços de direitos, a sociedade poderá ter acesso a direitos permanentes.  Acabamos ficando presos em uma espécie de armadilha e num ciclo vicioso preso numa ilusão de que esses projetos de curto prazo trarão benefícios de longo prazo.

No dia em que o povo brasileiro perceber que o valor de uma entrada de partida de futebol será tão cara que, com o seu salário, não será possível comprar o ingresso para o jogo, aí perceberão que a Copa do Mundo não é um evento popular.

IHU On-Line – Qual é o papel do BNDES na formação do capitalismo brasileiro ao longo das últimas décadas?

Gabriel Strautman – O BNDES vai fazer 60 anos em 2012.  Até 2003 ele tinha um papel importante de financiamento da indústria, mas esse papel passou a ser muito mais relevante depois de 2003.  Ele foi responsável, na ditadura particularmente, por financiamentos de grandes projetos, assim como faz hoje.  A diferença é que até 2003 os megaprojetos recebiam mais dinheiro do Banco Mundial.  Só que isso não é suficiente.

Além disso, o BNDES tem buscado fazer com que as indústrias que ele apoia se transformem em empresas orientadas para a globalização, com capacidade de disputar mercados globais.  Portanto, não estamos falando de diversificação da economia doméstica, de maior integração regional dentro do país... Por isso, é preciso lutar para que o BNDES se democratize e isso começa pela pressão por maior transparência em relação aos dados do banco.

IHU On-Line – Como o senhor vê o funcionamento da Plataforma BNDES?  Esse grupo tem sido ouvido e respeitado pelo banco?

Gabriel Strautman – A Plataforma BNDES é uma experiência muito importante porque ela parte de um trabalho que já era feito pelo Banco Mundial e começa a aplicar numa instituição brasileira.  O BNDES precisa ser uma instituição mais democrática.  A Plataforma BNDES começou a questionar isso tudo em 2007, construiu um documento muito interessante que não fica apenas na crítica ao banco, mas avança no sentido de alternativas para o BNDES e, a partir disso, instala um processo de diálogo com o banco.  Como é um banco que não tem cultura de participação de acesso às informações, ele não apostou no diálogo com a Plataforma BNDES.


(Envolverde/IHU On-Line)
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A LUTA CONTRA A FINANCEIRIZAÇÃO DE TUDO

14/02/2011 - 10h02
“A luta comum é contra a financeirização de tudo”
Por Leandro Uchoas*, para o Brasil de Fato

A economista Sandra Quintela discute desde a construção da CSA à dívida pública; do Haiti à crise ambiental mundial

No Rio de Janeiro, megaprojetos de desenvolvimento estão sendo instalados a um alto custo socioambiental. O Brasil sofre com um modelo atrasado de desenvolvimento e com o crescimento galopante de sua dívida pública. Na América Latina, povos inteiros enfrentam as mais distintas dores. Assuntos diversos? Sandra Quintela, recentemente nomeada coordenadora regional da Rede Jubileu Sul, uma articulação de movimentos e ONGs de países do Sul, prova que não. Nesta entrevista, ela fala dos resultados da missão de entidades à região de Sepetiba para investigar os danos socioambientais da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA). Aborda também o drama vivido pelo Haiti, as causas da dívida pública brasileira e as estratégias equivocadas de enfrentamento à crise socioeconômica global.

Brasil de Fato – Depois da missão que foi à CSA, da repercussão que houve, está havendo avanço?

Sandra Quintela –
 A missão foi um passo importante no envolvimento de outras organizações que conheciam a luta, mas não a realidade concreta. A Defensoria Pública acaba de ir até lá. Um grupo de pescadores de lá foi até Anchieta (ES), em solidariedade aos impactos da CSU [Companhia Siderúrgica do Ubu]. A Fiocruz está fazendo um seminário interno para envolver toda a instituição. Isso tudo é consequência da missão. Os dados que nós colhemos também serão mais um instrumento para dar visibilidade. Nós sabemos a realidade da região: grupos milicianos, associações controladas por eles, a empresa usando uma tática cruel de cooptação (promovem cursos de meio ambiente para formar a cabeça de professores, contratam gente para dialogar com a comunidade, criam telefone 0800). Eles vão na contramão de tudo o que está sendo discutido hoje, que é a economia de baixo carbono. O capital está se renovando, criando novas fronteiras de acumulação, com esse argumento do “capital verde”. E a gente, aqui, importando um modelo que a Europa não quer mais.

A gente vinha acompanhando esses problemas há quatro anos, e existia um bloqueio midiático. Agora, parece que começou a sair bastante na imprensa. Isso pode reforçar a luta?

Claro! Quanto mais as pessoas estiverem informadas, mais isso pode criar uma massa crítica. Os intelectuais orgânicos do Rio de Janeiro, e os artistas, deveriam estar mais envolvidos. Porque é o Rio de Janeiro que está em jogo. De um lado, constrói-se um polo siderúrgico-portuário-mineiro, e do outro lado um polo petroquímico. E a cidade no meio.

Mas, pelo que você está dizendo, na Academia também não é muito fácil o diálogo.
Não. É uma cegueira. É como se o Rio de Janeiro não se pensasse. A Academia aqui está pensando a Amazônia, o Nordeste, o mundo, e há poucos setores pensando o próprio Rio de Janeiro. E essa é a cidade, entre as grandes metrópoles, onde está mais em disputa o projeto do capital. Porque a gente está transformando-a, há algum tempo, em uma cidade-produto, uma cidade para ser vendida. O mundo nos conhece primeiro a partir do Rio de Janeiro. É um produto comercializado lá fora.

E está acontecendo no estado todo. Tem também, por exemplo, o Porto do Açu.

Tem o Porto do Açu no norte, onde também haverá uma siderúrgica para exportação. Completa-se uma cadeia. A CSA aqui, a siderúrgica do Açu e a CSU no Espírito Santo. Estamos com as três instaladas na costa, e todas se alimentando do minério de ferro de Minas Gerais. Vão se tornar Vazios Gerais.

Eu queria que você falasse um pouco do modelo de desenvolvimento representado por esses projetos.

O Brasil é o único país do mundo que reúne terras, água e luz disponíveis em grande quantidade. A riqueza mineral também é enorme – temos toda a tabela periódica. Então, o capital visa acumular o máximo. Nesses dez anos do século 21, explorou-se mais carvão mineral do que nos últimos séculos. Na Europa, eles agem diferente. Não têm mais planta lá – instalam aqui. É fácil ser consciente assim, deixando a parte suja para a gente. Na CSA, eles tiraram o emprego de oito mil pescadores e vão deixar dezenas ou centenas de trabalhadores com problemas de saúde. Isso tudo acontecendo com forte suporte financeiro do BNDES. Foi preciso capitalizar o BNDES criando títulos da dívida pública brasileira – e ele foi capitalizado em mais de R$ 180 bilhões. O governo toma emprestado no mercado internacional a uma taxa de juros altíssima, de 8% a 10%, e passa ao BNDES, que vai emprestar a uma taxa de 1% a 2% para a Vale, a Gerdau, a MMX etc. É uma lógica saqueadora – de recursos naturais, de força vital e de dinheiro público. As empresas beneficiadas – Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez – são uma caixa preta. Quem controla? São mesmo brasileiras? Tenho as minhas dúvidas. A gente vem trabalhando isso há mais de dez anos, a Rede Jubileu Sul. Buscamos provar que nós, do sul, somos os grandes credores da dívida social e histórica. Veja a lógica. O BNDES se capitaliza com títulos da dívida pública brasileira, e isso a gente vai pagar, porque quase 40% do Orçamento da União são para isso. É um escândalo. E não se fala disso. Os grandes temas do nosso projeto de país estão silenciados. E a dívida é o que financia esse modelo de desenvolvimento, que é uma via de mão dupla. Você se endivida para financiar esse modelo, e ele se mantém porque você tem que pagar a dívida.

Você foi escolhida coordenadora regional da Rede Jubileu Sul. Em que isso muda a sua atuação?

Agora eu tenho que estar mais vinculada a temáticas regionais. Em Cancún [onde se realizou a COP-16, encontro da ONU sobre mudanças climáticas], eu preparei toda a articulação com as redes regionais. Nós temos na região um grande patrimônio, que foi a campanha continental contra a Alca [Área de Livre Comércio das Américas]. Até 2005, era o maior espaço de articulação do continente. Hoje, muitas das organizações que fizeram a campanha continuam articuladas, seja na Aliança Social Continental, na Rede Jubileu Sul, no Grito dos Excluídos, na Marcha das Mulheres, na Via Campesina. A gente está sem uma agenda programática, uma bandeira de luta comum, que a Alca era. Acho que a luta comum agora é contra a financeirização de tudo o que se relaciona com a destruição do planeta.

Você está querendo dizer que a solução que se está propondo para o aquecimento global é a quantificação financeira de tudo?

É. Vou explicar. A crise que a gente vive na verdade é social, não é do capital. Porque o capital sempre se renova. Com a crise, de uma hora para outra surgiram trilhões. Até hoje não se sabe quanto. Fala-se em valores de 7 trilhões a 18 trilhões de dólares. De onde esse dinheiro saiu? Do Estado. A Grécia faliu. Portugal e Espanha estão falindo. Esses países tinham um modo de vida que foi absolutamente transformado, para se inserir na economia unificada europeia. Estão pagando a conta agora, com ajuste social, de uma sociedade que conheceu o Estado de bem estar social. Essa guerra cambial entre China, EUA e Europa pode se transformar numa disputa muito mais grave. Mas ninguém quer discutir isso. Estão dando o mesmo remédio que deixou o paciente enfermo. No entanto, eles estão criando outros mecanismos de desenvolvimento “limpo”. Por exemplo, a Alemanha se comprometeu a reduzir, pelo Protocolo de Kyoto, 5% de suas emissões de carbono. Se reduzir de 8% a 10%, ela tem o crédito para comercializar no mercado internacional os títulos do mercado de carbono. Se ela transfere uma planta para o Brasil – a CSA por exemplo –, ela pode negociar os títulos da poluição que deixou de fazer na Alemanha. Eles estão querendo quantificar até o pólen da abelha. Vai virar título. É mais dinheiro num mercado que já está transbordando de dinheiro fictício.

Queria que você falasse um pouco de seu envolvimento com o Haiti.

Nós, da Rede Jubilei Sul, começamos a trabalhar o Haiti em julho de 2004. O país foi primeiramente ocupado por Canadá, EUA e França, e depois veio a Minustah. Em 2005, fizemos a primeira missão ao Haiti. Já fizemos relatórios, vídeos, continuamos denunciando, para não deixar o Haiti ser esquecido. Algumas organizações silenciam por cumplicidade, por não querer se opor ao governo. Mas agora tem um dado novo. A população no Haiti está se revoltando contra a Minustah. Não aguentam mais. Quem vai ao Haiti diz que parece que o terremoto foi ontem. Os destroços permanecem. O Estado lá está completamente desmantelado. Três dias depois do terremoto, George W. Bush e Bill Clinton foram nomeados os grandes patronos do fundo para a reconstrução do Haiti. Isso não pode ser sério. Hoje, grandes ONGs disputam territórios. Os acampamentos são controlados por ONGs que não dialogam nem se interconectam. Está comprovado que essa bactéria, que trouxe a epidemia de cólera, foi trazida da Ásia. A gente está propondo um seminário, para o ano que vem, sobre os seis anos da Minustah. Nossa avaliação é negativa – não existem logros reais. Já foram gastos mais de 4 bilhões de dólares só para manter a Minustah.

Não existe também nenhuma projeção de fim à ocupação?


Quando eles ocuparam, o Colin Powel era secretário de Estado dos EUA. Ele falou que aquilo era para vários anos. A ONU disse que debatia a retirada, mas quando aconteceu o terremoto, decidiram que não podiam mais sair. A gente tem uma dívida histórica com o Haiti. Estamos vendo um país ser usado como laboratório de políticas de repressão, de criminalização da pobreza e de táticas de guerrilha urbana.

Você já me contou que, através da Rede Jubileu Sul, tinha acesso a informações preciosas e que impressionava como ninguém comentava nada nos meios de comunicação.

Sim. No Panamá, no meio do ano, por exemplo, houve grandes mobilizações, com vários presos. Era contra um pacotaço de leis, com onze itens, em que se proibia greves e manifestações e se aumentava os impostos. No Brasil, não saiu nenhuma linha. Agora mesmo, cinco camponeses foram assassinados em Honduras, por grupos paramilitares. Honduras já não é mais assunto. Na Guatemala, proibiram a mineração a céu aberto, o que foi uma grande vitória. Em Trinidad e Tobago ganhou uma mulher de esquerda. E o exército boliviano se declarou, agora, anticapitalista. Não é pauta, infelizmente.

*Do Rio de Janeiro (RJ)

**Publicado originalmente no site do Brasil de Fato - http://www.brasildefato.com.br/node/5641



(Envolverde/Brasil de Fato)
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Oportunidade para a Embraer com cargas pesadas?

Observando constantemente enormes caminhões transportando cargas pelas estradas, observo peças enormes, de dezenas de toneladas, volumosas e pesadas a ponto de necessitarem batedores, tomando a estrada e criando congestionamentos. Imagino o custo astronômico que deve ser a realização de tais transportes. Os caminhões são enormes, dirigem em velocidades muito baixas, as carretas possuem dezenas de pneus, há o custo dos batedores, dos pedágios, custos de toda ordem.
Em uma de minhas viagens rodoviárias, ao observar o transporte de várias peças avantajadas por vários caminhões, parei em um posto de gasolina para fazer perguntas e me foi dito que são transportadas peças de até 200 toneladas. Ocorreu-me então que já estaria na hora de pensarmos em uma solução inovadora.

Ontem, 11 de fevereiro de 2009, deparei-me com a carreta da foto acima parada no acostamento da Av. Brasil, no Rio de Janeiro. Fotografei-a e fiz perguntas. Fiquei sabendo que a carga pesava 210 toneladas, a potência do motor do cavalo da carreta é de 660 cavalos e todo o conjunto tem 210 pneus. A carreta parou devido a muitos pneus furados que tiveram que ser reparados para que pudesse seguir viagem. Como resultado disso, um congestionamento monstro na Av. Brasil, com custos não contabilizados para todos nós.
Quando o Brasil fez a opção de desenvolvimento centrada nas rodovias, deixou de lado o transporte costeiro, a navegação de cabotagem, o transporte ferroviário e também o transporte aéreo. As enormes distâncias de nosso território, aliadas à distância física que nos separa dos centros econômicos mais pujantes da América do Norte, da Europa e da Ásia, devem nos fazer valorizar mais o transporte aéreo.
Claro que o avião já está competindo com o ônibus nos trajetos mais longos. Isso para o transporte de passageiros. No entanto, o avião não serve para o transporte de cargas pesadas. No máximo, um Hércules pode transportar um tanque de guerra, suponho. Há cargas mais pesadas do que isso em nossas estradas todos os dias e o mesmo deve estar acontecendo na América do Norte, na Europa, na Oceania e também na África.

Acho que precisamos de um conceito diferente para o transporte de cargas pesadas por via aérea e em http://pt.wikipedia.org/wiki/LZ_127_Graf_Zeppelin vim a saber que os dirigíveis alemães de antes da 2ª Guerra Mundial chegavam a tranportar 62 toneladas. Portanto, um dirigível que tivesse um volume três vezes maior estaria bem próximo das 200 toneladas. Ora, esses dirigíveis tinham 213 m de comprimento e como queremos um dirigível com capacidade de carga três vezes maior, por uma questão de geometria espacial, o comprimento dessa nave será menor do que 3 vezes 213m. Hoje temos materiais mais leves e resistentes, a Embraer tem engenharia e computadores avançados o suficiente para desenvolver um modelo matemático que possa demonstrar a viabilidade econômica e física para a utilização de dirigíveis no transporte de grandes cargas de cerca de 200 toneladas.



Assim, proponho que a Embraer comece a desenvolver estudos para dirigíveis de carga e que o governo brasileiro financie o estudo, desenvolvimento e construção de dirigíveis de carga, possivelmente através do BNDES.
Gostaria muito de receber comentários sobre este texto, aos quais antecipadamente agradeço.