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sábado, 23 de outubro de 2010

A prisão do desafeto

por Ellen Augusta Valer de Freitas

As crianças, com raras exceções, percebem o animal como coisa, como parte do mundo. Isto porque, no mundo da criança, tudo faz parte dela. A educação humanitária ensina que, para mostrar respeito ao outro, devemos respeitar sua individualidade, sua condição diferente da nossa. Os zoológicos são lugares perversos nesse sentido. Eles reforçam o caráter egoísta do ser humano e mostram de maneira óbvia como tratamos os animais. Coisas a serem admiradas, invejadas, tomadas.

Quem já foi a um sabe bem: multidões fazendo churrasco, enchendo a cara, jogando comida, pedras e outros objetos nos animais. Furando os olhos dos mais mansos com gravetos. Essa é a condição egoísta de nossa espécie. Curiosa e arrogante por natureza. Diferente dos santuários, que abrigam animais carentes, sobretudo os que vêm do tráfico de animais e já não tem mais nenhuma chance de readaptação em seu ambiente natural, os zoológicos são centros de lazer para humanos e prisões para o restante dos animais.
Os santuários abrigam animais e até podem receber visitação, mas é orientada. A precariedade dos zoológicos e o foco centrado no lazer para humanos fazem deste lugar algo terrível.

Quando era criança, fui ao zoológico de Sapucaia do Sul e não me lembro de absolutamente nada. A ideia romântica de que o zoológico é uma experiência incrível para as crianças não é bem assim. Nas vezes em que voltei ao zoológico, já como estudante de biologia, detestei o que vi. Alguns animais, só conheci pois os vi mortos na estrada ou em trabalhos dentro da faculdade de Biologia (os animais nativos do RS que morrem no zoológico de Sapucaia do Sul eram fornecidos para o Instituto Anchietano de Pesquisas para serem reaproveitados em trabalhos dentro do centro. E eu fui voluntária nesta parte do trabalho que era desmembrar os animais já mortos para montar uma coleção de esqueletos para serem usados em comparação na zooarqueologia). Neste ponto, é um importante recurso para substituição da vivissecção, mas na área de arqueologia e zooarqueologia não se pratica vivissecção, pelo menos até onde saiba.

Não acho que o fato de não ter visto animais como leões, girafas, camelos tenha comprometido minha visão sobre os animais. Não temos o direito de ver os animais que não vivem em nossa região. E temos que aprender a aceitar e entender isso.
Cada ser vivo pertence a um contexto, alguns vivem nas profundezas abissais e jamais viveriam fora de lá. Não temos o direito de interferir em suas vidas apenas por uma curiosidade mórbida, e jogando mais uma vez o peso sobre as crianças – que é a desculpa que ouço sempre – “as crianças precisam conhecer o canguru”.

Não precisam. Elas precisam conhecer o respeito aos seres vivos, precisam conhecer os animais de sua região, estudar seus modos de vida, visitar lugares onde eles vivem livres. E aceitar que não podemos ver tudo, que bugios podem não querer contato conosco. E teremos de respeitar sua vontade, não jogando pedras e nem fazendo cara feia. Mas como é difícil aceitarmos o outro, e desenvolver em nós sentimentos genuínos de amor e respeito, quem sabe, amizade.Ontem pela manhã a TV mais uma vez refletiu de maneira perfeita a mentalidade de muitos, mostrando o “amor” dos criadores de animais. “Para mim são como filhos”. Curioso é vender e agenciar a reprodução dos “filhos”.

No mundo onde poder falar sem parar num celular é o que conta, mesmo que só se digam bobagens, pouco se investiu na qualidade dos sentimentos, tudo é uma questão de compra e venda de afetos. Compram o bichinho fofinho, mas só querem daquele tipo x, o com cara de lobo, o com cara de ursinho, de acordo com o freguês. E recentemente a campanha contra a compra de girafas importadas da África para “abastecer” o zoológico de Sapucaia do Sul mostra que nem todos estão girando nessa mecânica. Ainda existem pessoas que sentem de verdade, pensam de forma realmente inteligente, e deixam um pouco para lá nossa curiosidade e vontade de comprar o mundo e a felicidade.

Clique na imagem para ampliar
girafa

Fonte: ANDA

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ecos do feminismo na libertação animal

por Ellen Augusta Valer de Freitas

Recentemente a bióloga e bacharel em comunicação social Tamara Bauab Levai, autora do livro Vítimas da Ciência – Limites éticos da experimentação animal, fez uma brilhante palestra no congresso vegetariano brasileiro sobre ecofeminismo.

Conheci gente que só foi ao congresso para assistir a esta palestra e lamento que eu não tenha podido assistir, pois este tema me fascina. De dentro de nossas bases, como biólogas, temos muito material para falar de como historicamente, biologicamente e economicamente a exploração da mulher e dos animais, da natureza como um todo, tem andado de braços dados. Mas a mulher é a única que tem voz e meios igualitários de se defender perante os demais de sua espécie, ou pelo menos deveria usar destes meios.

Ainda hoje, ser uma “mulher pública” gera o incômodo persistente de que há algo errado com ela. Não pode ser sério, não pode ser dela a fama. É por causa do marido, ela deve ter comprado o diploma, blá-blá-blá…

Será? Vemos isso na política, na sala de aula, em todo lugar. Isso é velho, mas ainda temos de ouvir. Enquanto discutimos sobre isso, ainda pesa no ar o preconceito contra as mulheres e a sutil comparação com a “natureza”, de forma depreciativa.

As mulheres possuem voz. Os animais, não.

Fritjof Capra, em seus livros excelentes, já relatou trechos de biólogos, psicólogos e outros sobre a sutil e inconsciente comparação da mulher com a natureza. Semelhante comparação feita por Tamara Bauab Levai nos seus artigos. E o físico Fritjof Capra, de forma sucinta, compara a exploração da mulher com a exploração da natureza. Segundo suas palavras, assim como o “homem” dominou e explorou a natureza, assim ele pensa em relação às mulheres e a qualquer expressão do feminino. As frases “dominar a natureza”, “explorar e invadir a natureza” seriam aplicadas ao comportamento com relação às mulheres em geral.

De modo que o feminino, sendo reprimido, não teve outra saída senão estar disfarçado por todos os lados, nas igrejas sob símbolos e nas roupas de sacerdotes entre outros modos de expressão sutil. Pois todos temos os lados masculino e feminino, e é natural que estas duas forças se expressem de qualquer modo, mesmo sendo negada.

Estas teorias/constatações, vindas de um físico, de biólogos e psicólogos, já são polêmicas. Mas parece que, quando uma mulher fala deste assunto, as pessoas se incomodam profundamente, como se à mulher coubesse apenas calar. Jamais discutir e denunciar o preconceito vigente. Por quê?

Outro psicólogo aqui do Brasil, Ezio Flávio Bazzo, denuncia em alguns de seus livros a nomenclatura pela qual as mulheres são ostensivamente chamadas e detalhes da natureza humana:

“Assim como em vários recantos deste planeta crianças são mutiladas e deformadas propositalmente por seus familiares e por outros adultos para serem usadas depois como instrumentos de mendicância, durante muito tempo os pés das mulheres chinesas também foram mutilados e diminuídos porque os homens sentiam excitação diante de mulheres com pés de criança. A pedofilia, talvez seja mais antiga que aqueles rochedos vulcânicos sobre os quais os arqueólogos e os paleontólogos tanto têm cacarejado.”

“Coelhinha. Cadela, vaca, cabrita. Esses ‘elogios’ frequentemente dirigidos às mulheres encontram sua expressão máxima no ambiente que os sulistas denominam matadouro.

Matadouro, lá no sul-maravilha é o lugar, como já relatou uma entrevistada, escritório, quitinete, apartamento, motel, garagem, etc., para onde os senhores-de-bem levam clandestinamente suas amantes ou suas meninas para f… [omitido neste artigo, mas não no texto original]… Seria ódio à mãe expresso de forma generalizada contra todas as mulheres?”

A mulher como objeto e os animais como objetos: exemplo de convite para festa. (Reproduzido de Myspace.com)

Segundo ele, essa mania de alguns homens de querer infantilizar a mulher, seja do ponto de vista físico, bem como do ponto de vista intelectual, e de preferir mulheres com comportamento infantiloide, seria uma atitude que denuncia uma preferência por modos infantis. Algumas mulheres entram no jogo, pois para que exista o opressor tem de haver os que voluntariamente se colocam como oprimidos. Já notei que alguns homens não suportam por muitos minutos uma mulher com uma opinião mais arrojada, ou simplesmente com opinião!

E Ezio Flávio Bazzo continua:

“Mãe é mãe… paca é paca… mulher é tudo vaca… a música do Bussunda não é apenas uma brincadeira, um humor negro e uma arte, é o cântico dos cânticos do mundo masculino. Para o homem comum, intelectual, rico, pobre, ignorante etc., a mulher não passa de uma vaca, começando pela mãe e as irmãs, continuando com a professora e terminando com a esposa, as filhas, as amantes. Numa pesquisa realizada numa faculdade da cidade, onde 99% dos alunos são mulheres, 30% do universo pesquisado acham que a mulher, se não é, pelo menos tem algo em comum com as vacas. Mãe é mãe… paca é paca… mulher é tudo vaca… Cantam pelos corredores da história. (…) Mas voltando ao assunto da vaca, desse animal passivo, de olhos tristes, que vive para ruminar e para enriquecer seus gigolôs (os pecuaristas) com leite, chifres, filé mignon e com a própria pele, por que será que as mulheres se indignaram bem mais com a música que as chama de vaca do que com as que as chamam de cachorras?”

Estas incômodas e irreverentes colocações são interessantes para mostrar como a sociedade aceita prontamente certos comportamentos. Como uma sociedade machista e presa a conceitos estreitos de liberdade pode pensar em libertação animal? Ainda estaremos longe de libertar os animais, se continuarmos a ajudar a construir nossas próprias grades. As mulheres ainda estão apoiadas sobre as grades que elas mesmas ajudam a manter. Algumas se orgulham de depreciar as demais. Como se a personalidade pessoal/o cabelo ou a maneira de ser interferisse na qualidade do trabalho, na profissão. Diferente dos animais, que não têm voz, nem escolha dentro do nosso mundo, aqui encontramos um paradoxo, que é o cultivar as próprias grades e se incomodar quando alguém se liberta.

Percebam como o mal prontamente se organiza, o bem é disperso, portanto também é mal.

Os que são contra os animais/mulheres/crianças estão prontamente organizados e unidos. O restante é omisso e desunido. Triste realidade. Obviamente sei das exceções ao que escrevo aqui.

As palavras deste escritor, em todo seu significado, nos mostra de maneira clara como até mesmo a linguagem é presa aos diversos preconceitos existentes.

Gosto de frisar algumas palavras especistas, pois se fôssemos deixar de usar as palavras especistas, machistas, e de outras classes de preconceitos de nossa linguagem, rapidamente a língua portuguesa estaria fadada à extinção, até mesmo dentro de sua estrutura.

Num próximo artigo, citarei algumas frases misóginas de filósofos em que todos babam e que idolatram, os quais construíram as bases da filosofia moderna. E as relações entre especismo e machismo, além das que foram citadas aqui.

Fonte: ANDA