quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

PACTO DE RESTAURAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA

arquivo em PDF pra baixar, a quem possa interessar

www.pactomataatlantica.org.br

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

CHUVAS E REPETIÇÃO DOS DESASTRES

20/01/2011 - 10h01
Chuvas: quem é que vai pagar por isso?


Por Vilmar Berna*, do Portal do Meio Ambiente


Não existe explicação que justifique a repetição freqüente e previsível, verão após verão, de tantas perdas de vida e de patrimônio em função das chuvas. Temos gente com conhecimento, tecnologias, recursos, então, por que este problema repete-se em todos os verões, como já previu Tom Jobim, na música “Águas de março”?

Dizem que não é de bom tom, e que chega a ser cruel, no momento da tragédia, quando se contam os mortos e os prejuízos, cobrar culpas e responsabilidades. Entretanto, em respeito aos que morreram agora, e em respeito aos que poderão morrer no próximo verão, temos de remexer nesta ferida. Lembro a pergunta do Lobão, na canção Revanche: “Quem vai pagar por isso? Até quando as autoridades permitirão, por ação ou omissão, a ocupação das áreas de encosta frágeis pela sua própria natureza, que irão deslizar de qualquer jeito, com ou sem floresta por cima? Até quando as margens de rios e as áreas de várzeas continuarão sendo ocupadas, mesmo com todos sabendo que mais dia ou menos dia encherão? Antigamente, só os mais pobres eram afetados, mas agora, os ricos e a classe média também contam seus mortos. Antes, o problema atingia mais duramente as áreas de risco, mas agora até as áreas consideradas seguras estão sendo atingidas. E alguns ainda resistem em admitir o impacto das mudanças climáticas.

Precisamos aprender com os erros, pois se não fizermos isso, é certo que voltaremos a repeti-los. E entre os mais graves erros está o de só liberarem recursos para as Prefeituras diante da emergência ou calamidade! Por que não se liberam recursos antes, já sabendo que cada real gasto em prevenção economiza mais de 10 na reparação do desastre?

As leis de uso do solo, os planos diretores, as políticas de licenciamento, estão completamente ultrapassadas ou mesmo mal feitas e precisam ser revistos para impedir a ocupação das áreas frágeis ainda desocupadas. Onde estão nossos vereadores tão céleres para conceder títulos e aprovar emendas ao orçamento para seus bairros?

Quanto às áreas já ocupadas, onde estão nossos prefeitos e governadores para promoverem sua desocupação, com ordenamento e inteligência, pois se continuar a não ser feito por bem, a natureza fará por mal, verão após verão! As populações de baixa renda que foram deixadas à própria sorte para ocupar áreas de risco e não edificantes precisam ser realocadas. Onde estão nossas autoridades do Governo Federal e seus programas habitacionais para essas populações de baixa renda? Poderiam estar incentivando mutirões remunerados e o cooperativismo para que os próprios futuros moradores construíssem suas próprias casas, após receberem a devida capacitação, e apoio técnico necessário, em áreas seguras, gerando trabalho e renda, aproveitando para incorporar tecnologias limpas e ecoeficientes.

As unidades de conservação, parques e bosques urbanos não seriam só para a proteção da natureza, mas para proteger as pessoas da natureza. Na medida em que as áreas de risco fossem desocupadas, em seu lugar seriam criadas essas unidades de conservação no local, e cada metro quadrado daria ao município o direito de receber repasses federais e estaduais que os compensassem pela perda de receita com os impostos, que deixarão de arrecadar sobre estas áreas protegidas, como já é feito pelo ICMS Ecológico.

Os profissionais de imprensa, por sua vez, vivem em momentos assim situações equivalente a dos correspondentes de guerra. Como se proteger e ao mesmo tempo estar na linha de frente dos acontecimentos? Como lidar com fontes emocionadas, desinformadas, mal informadas? Como improvisar quando o equipamento falha? Como encontrar as alternativas para transmitir os dados a serem divulgados? Como lidar com o emocional e o profissional diante dos dramas vividos pelas pessoas e pelo próprio profissional? Ate aonde ir neste envolvimento sem prejudicar a tarefa de colher e transmitir a informação? Como lidar com pessoas fragilizadas sem ser invasivo ou insensível diante da dor alheia? Como fazer o seu trabalho sem atrapalhar ao trabalho dos outros, do pessoal do resgate? Como colocar o foco na noticia, ir à raiz do problema, fazer as perguntas certas às pessoas certas? Não dá para se imaginar que toda essa capacitação e prontidão para as respostas acontecerão por um acaso. Onde estão os cursos de capacitação para profissionais de comunicação que precisam cobrir desastres e calamidades?

A solidariedade humana surpreende em momentos de desastre, como surpreende também o despreparo. Muito trabalho voluntário é perdido por que falta coordenação, sistemas de aviso e comunicação, planejamento das ações, onde o trabalho voluntário ajuda e onde atrapalha, onde é mais necessário, etc. E nada disso é possível fazer durante o desastre. Então, precisa ser feito antes. Entretanto, onde estão os cursos de capacitação para voluntários? Como eles podem ser avisados e serem mantidos informados? A quem recorrer para serem encaminhadas para a linha de frente de trabalho voluntários? Quem os ampara psicologicamente diante dos dramas e perdas que irão assistir e com os quais terão de conviver? Sim, por que ao lado das perdas materiais, as pessoas sofrem com terríveis perdas espirituais, que podem ser tão ou mais devastadoras que as perdas materiais. As pessoas podem desmoronar por dentro, perder o estimulo e a motivação para lutar e se reerguer. Como lidar com crianças resgatadas sozinhas, que se tornaram órfãos da noite para o dia, perderam a casa e todas as referências? O lar não está na casa perdida, nos bens materiais, nos documentos históricos. O lar é espiritual. Está onde estiver a família ou o que sobrou dela. Pode estar num estádio que reúne os sobreviventes.

*Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente (http://www.portaldomeioambiente.org.br/).  Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas – http://www.escritorvilmarberna.com.br/


(Envolverde/O autor)
Últimos Comentários
Afonso do Carmo (afonso540@hotmail.com)
Esta é a questão: os mais resignados dizem “catástrofes naturais sempre aconteceram e sempre acontecerão. Isso nada tem a ver com aquecimento global ou com os aspectos éticos e morais do ser humano na atualidade.” E nem percebem que a resignação é como um suicídio do dia-a-dia.
É exatamente aí onde está o problema. Este é o atestado, não de incompetência, mas de rigorosa e incontestável burrice.
Errar é humano, mas persistir no erro é burrice. E pelo que consta nos livros, asnos não são capazes de evoluir. Isso porque nada no mundo é capaz de tirá-los da apatia, da indolência mórbida e do circulo vicioso engendrado por suas reflexões ordinárias e, porque não dizê-lo, asnáticas.
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Domínio, medo e milagres ou ‘peixe-elétrico nadando em 8′

poraque

por Marcio de Almeida Bueno, jornalista

Então eu tinha tipo uns onze ou doze anos, e próximo à lancheria dos meus avós apareceu um ônibus-zoológico-museu, bem decadente e até assustador, diria. Pedi ao meu avô o dinheiro da entrada – pagava-se para entrar no tal ônibus e ficar circulando o tempo que quisesse – e comprei meu ingresso. Havia potes ou aquários com cobras, aranhas, insetos, uma onça empalhada e, minha maior recordação, um poraquê.

O tal peixe-elétrico ficava em tanque imundo – como tudo mais lá dentro, incluindo as pessoas que atendiam – que tinha exatamente seu comprimento, e um pouco mais que sua própria largura. Então, em uma água que parecia nunca ter sido trocada, cinzenta e com limo, ele ficava ‘nadando’. Aliás, nadando não seria o termo correto, pois ele seguia em uma rota eterna, fazendo um ’8′ dentro do tanque, em loop infinito. Com um par de olhos assustadoramente arregalados, preso em um sádico Aquaplay.

Eu fiquei chocado e seduzido por tudo aquilo que estava em exposição dentro do ônibus, um túmulo de animais vivos ou mortos, com roleta na entrada. Pensava no poraquê nadando sem parar, seguindo em frente até ter uma parede em sua frente, fazendo a mesma manobra em 8 que seu corpo escorregadio permitia, e no segundo seguinte já ter a parede do outro lado para ser desviada, ad infinitum.

Nas duas horas que fiquei lá dentro, ele não saiu de seu trilho, no fiapo de ‘rio Amazonas’ contido em algo maior que um balde retangular. O insight de estar indo e voltando em uma cuba de água, pressionado por um horizonte de paredes em frente ao nariz, jamais saiu da minha cabeça. A cage madness, ou a tentativa de se manter são no confinamento, sempre me espancou a consciência com tacos de baseball.

Uma década depois, via diariamente no Centro de Porto Alegre um vendedor ambulante, daqueles com microfone, piadas de circo e uma platéia de desocupados ao seu redor, vendendo a ‘milagrosa pomada feita da gordura do peixe-elétrico-da-Amazônia’. Curava diabetes, reumatismo, dores musculares e qualquer doença em evidência no momento ou desconforto físico popular.

Preso em sua condição de freak show, o poraquê estava eleito como peixe-milagre, peixe-salvação, peixe-mito, desde o caboclo temeroso de seu poder de ataque, até aquele que aprendeu a dominar o fogo, digo, o peixe, e colocou-o como mais um ingrediente na máquina que produz objetos de consumo a partir de animais. Poderia haver gordura comprada em açougue naqueles potinhos, mas a visão de algo tão poderoso que precisava ser domesticado, controlado, dominado e embalado para os trouxas, persistia.

Como o tigre que está no zoológico, preso antes pelo próprio poder que se tornou cobiça humana, desafio em estar no controle, do que pelas grades e muros. Tanto é, que há países onde o tigre é traficado como especiaria culinária, cujo pênis devidamente preparado teria poderes afrodisíacos. Imagino alguém pensando, ‘só algo mágico vai fazer meu pau subir… manda vir um tigre, eu pago’, ‘só uma receita dos índios da Amazônia ppara me curar da ________, quanto é o vidrinho?’. O desconhecido segue sendo mistificado, ‘eu temo o que não conheço, mas nele deposito minha vida’.

E o animal não-humano, diferente do diferente, vai ser confinado e passar a vida nadando em 8, para todas as crianças de onze anos poderem olhar por alguns minutos. Eu entrei naquele ônibus porque amava os animais, mas inadvertidamente paguei por mais uma diária para aquele peixe preso. O poraquê segue seu fluxo desesperado, fazendo loops em 8 na minha memória, desde então.

Fonte: ANDA

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

CRISE NEOLIBERAL E O SOFRIMENTO HUMANO

04/01/2011 - 10h01
Crise neoliberal e sofrimento humano

Por Leonardo Boff*


O balanço que faço de 2010 vai ser diferente. Enfatizo um dado pouco referido nas análises: o imenso sofrimento humano, a desestruturação subjetiva especialmente dos assalariados, devido à reorganização econômico-financeira mundial.

Há muito que se operou a “grande transformação”(Polaniy), colocando a economia como o eixo articulador de toda a vida social, subordinando a política e anulando a ética. Quando a economia entra em crise, como sucede atualmente, tudo é sacrificado para salvá-la. Penalisa-se toda a sociedade como na Grécia, na Irlanda, em Portugal, na Espanha e mesmo dos USA em nome do saneamento da economia. O que deveria ser meio, transforma-se num fim em si mesmo.

Colocado em situação de crise, o sistema neoliberal tende a radicalizar sua lógica e a explorar mais ainda a força de trabalho. Ao invés de mudar de rumo, faz mais do mesmo, colocando pesada cruz sobre as costas dos trabalhadores. Não se trata daquilo relativamente já estudado do “assédio moral”, vale dizer, das humilhações persistentes e prolongadas de trabalhadores e trabalhadoras para subordiná-los, amedrontá-los e, por fim, levá-los a deixar o trabalho. O sofrimento agora é mais generalizado e difuso afetando, ora mais ora menos, o conjunto dos países centrais. Trata-se de uma espécie de “mal-estar da globalização” em processo de erosão humanística.

Ele se expressa por grave depressão coletiva, destruição do horizonte da esperança, perda da alegria de viver, vontade de sumir do mapa e até, em muitos, de tirar a própria vida. Por causa da crise, as empresas e seus gestores levam a competitividade até a um limite extremo, estipulam metas quase inalcançáveis, infundindo nos trabalhadores, angústias, medo e, não raro, síndrome de pânico. Cobra-se tudo deles: entrega incondicional e plena disponibilidade, dilacerando sua subjetividade e destruindo as relações familiares. Estima-se que no Brasil cerca de 15 milhões de pessoas sofram este tipo de depressão, ligada às sobrecargas do trabalho.

A pesquisadora Margarida Barreto, médica especialista em saúde do trabalho, observou que no ano passado, numa pequisa ouvindo 400 pessoas, que cerca de um quarto delas teve idéias suicidas por causa da excessiva cobrança no trabalho. Continua ela: “é preciso ver a tentativa de tirar a própria vida como uma grande denúncia às condições de trabalho impostas pelo neoliberalismo nas últimas décadas”. Especialmente são afetados os bancários do setor financeiro, altamente especulativo e orientado para a maximalização dos lucros. Uma pesquisa de 2009 feita pelo professor Marcelo Augusto Finazzi Santos, da Universidade de Brasília, apurou que entre 1996 a 2005, a cada 20 dias, um bancário se suicidava, por causa das pressões por metas, excesso de tarefas e pavor do desemprego. Os gestores atuais mostram-se insensíveis ao sofrimento de seus funcionários, acrescentando-lhes ainda mais sofrimento.

A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de três mil pessoas se suicidam diariamente, muitas delas por causa da abusiva pressão do trabalho. O Le Monde Diplomatique de novembro do corrente ano, denunciou que entre os motivos das greves de outubro na França, se achava também o protesto contra o acelerado ritmo de trabalho imposto pelas fábricas causando nervosismo, irritabilidade e ansiedade. Relançou-se a frase de 1968 que rezava:”metrô, trabalho, cama”, atualizando-a agora como “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer, doenças letais ou o suicídio como efeito da superexploração capitalista.

Nas análises que se fazem da atual crise, importa incorporar este dado perverso que é o oceano de sofrimento que está sendo imposto à população, sobretudo, aos pobres, no propósito de salvar o sistema econômico, controlado por poucas forças, extremamente fortes, mas desumanas e sem piedade. Uma razão a mais para superá-lo historicamente, além de condená-lo moralmente. Nessa direção caminha a consciência ética da humanidade, bem representada nas várias realizações do Forum Social Mundial entre outras.

*Leonardo Boff é autor de Proteger a Terra-Cuidar da vida:como evitar o fim do mundo, Record 2010.


(Envolverde/O autor)

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